À Alice, com amor

Para ler ao som de The Smiths

À Alice, com amor

E volta e meia eu passo pelos portões altos da antiga casa da Alice. Hoje não posso chamar de casa. É uma papelaria, cheia de cores, adesivos e bugigangas inúteis que enchem os olhos. Não costumava ser assim. Eu olho e penso nossa, será que as pessoas aí sabem das memórias dessas paredes de chapiscos? Será que conseguiram apagar os vestígios da menina dos olhos de lama e lágrima, dos cabelos frisados, dos vestidos e calças de fino trato? Não sei. Penso que existem coisas que ficam, mesmo quando tudo mais se vai.

Volta e meia lembro da Alice, perdida naqueles sonhos de menina mimada, ensandecida pelas ruas depois da terceira ou quarta bebida, se rasgando pelos elogios de outrem. Ah, como esquecer da voz de contralto que afinava no pranto, das unhas que rasgavam a pele do rosto? Alice não era desse mundo.

Eu lembro da Alice chorando sempre. Nunca soube ao certo a razão. Mãe rica, pai falecido – ou fugido, não sei bem, Alice tinha várias versões -, padrasto de bigodes pontudos e face rígida, irmãos crescidos, cachorros no quintal. Mordomo, chofer e todas essas coisas que impedem que uma menina cresça sabendo o que existe fora da redoma. Alice sabia nada da vida. Mas se doía tanto que sua existência parecia um calvário.

Volta e meia me lembro da letra garranchada, impressa em bilhetinhos tristes, passados de mão em mão, comentados às risadas. Alice não tinha amigos.  Tinha meia dúzia de admiradores, apaixonados pelas unhas pintadas e os seios proeminentes, um ou outro colega de infância – um João, um Mario, um qual-é-o-nome-dele-mesmo? – e um sem número de comentários anônimos & destrutivos.

Um dia eu conheci Alice. Elogiei os cílios compridos e ela me disse que eram postiços. Elogiei as unhas redondas e ela disse que eram postiças. Elogiei o cabelo e ela disse que não era de verdade. Lembro de ter brincado com ela, perguntando se havia algo real ali. E a intensidade daquele olhar, aquele misto de “me salva de mim mesma” e “vá para o inferno”, me atingiu como um soco enquanto ela ria e dizia que não.  Ela ergueu a mão e gesticulou, as pulseiras escorregando pelo braço magro, revelando as marcas que a tornavam famosa. Ainda hoje vejo tudo em câmera lenta.

Ela só quer chamar atenção, era o murmurinho padrão quando Alice corria estalando os saltos, vomitando sua dor em quem passasse, os braços erguidos e feridos. Eu acho que a afirmação estava certa. Alice só queria chamar atenção para o caos que vivia dentro dela. O fazia de maneira errada, mas tentava. Quem é que pode culpá-la?

Volta e meia passo pela papelaria, lembro da Alice e sorrio para o alto. O choro copioso nos corredores quando avisaram que ela tomou um coquetel de tarja preta e Cointreau e se enforcou na sacada, ali, aos olhos do mundo que duvidava, ainda é vivo na minha mente.

Imagino que Alice sorri de volta, feliz porque se fez entender.

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