Sobre o que nunca foi embora

Para ler fumando.

Sobre o que nunca foi embora

Mikael correndo pela cidade, tonto de tanta bebida barata, passando por entre as pessoas, derrubando-as vezenquando, desculpando-se com uma gargalhada sem qualquer arrependimento. Tinha um cigarro na mão – como não podia deixar de ser – e um gosto amargo na boca.
Ele era assim. Metade criança, metade homem feito. Tinha uma beleza exótica, acima da média – algo entre o profano e o divino. Soava erótico com a voz rouca, mas desmanchava a imagem quando bem quisesse. Não perdia seus encantos nunca, entretanto.
Mikael sempre me puxava pela mão, discursando sobre a beleza da vida que se perdia a cada instante. Dizia-me que eu nunca seria mais bonita do que era naquele momento, enquanto ébria, jovem e ingênua. Considerava-o um romântico. Ou um fodido. Eu nunca soube bem qual das duas coisas ele era.
Mikael sentado no balanço do parque, de madrugada, fumando um maço importado, encantado pela forma com a qual o sabor se espalhava pela boca e descia pela garganta seca. Comentou que aquilo era melhor do que as dez últimas relações sexuais que havia tido, e que passaria a substituir noites de péssimos orgasmos por maços de dezesseis reais e cinqüenta centavos. Era mais barato do que uma prostituta, de qualquer maneira, ele ria com aquela risada esganiçada que só ele fazia parecer bonita.
E eu ficava ao seu lado, chutando a areia suja de papel de bala, giz de cera e cabeças arrancadas de bonecas Barbie, concordando com tudo. Mikael não se cansava de falar. Declamava então sobre aquela noite encantada, sobre a abóbada de estrelas que girava sobre as nossas cabeças tomadas pelo vinho. Erguia-se com os braços bem abertos, levando o vento gélido contra o corpo, recebendo-o como um pai saudoso receberia de volta um filho.
Terminava ajoelhado na minha frente, tomando as minhas mãos como o perfeito cavalheiro que ele nunca seria, enrolando as sílabas antes de vomitar nos meus sapatos. E por algum motivo que ainda hoje não me parece compreensível, eu só ria.
Mikael pulando o muro de um condomínio próximo para nadar sem roupas na piscina deles. Ele era um exibicionista nato. Gostava que vissem as tatuagens e piercings indiscretos, que elogiassem a silhueta esguia que ostentava. Tinha um corpo que pendia entre o feminino e o masculino, livre de imperfeições visíveis e moldado a partir de uma dieta saudável de pílulas e álcool.
Ele ria de mim porque eu tinha medo. Sempre imaginava algum segurança armado até os dentes invadindo o local e acabando com a nossa diversão. Não queria ser estatística; tinha pavor de ser manchete. Soaria tão estúpido ser presa nua por nadar numa piscina privada.
Nada nunca aconteceu. Mikael ria a cada nova visita, sempre me incitando a arrancar as vestes e me atirar na água gelada. Eu nunca o fiz. Sempre preferi observar o corpo que sumia nas ondas fracas.
Mikael enchia as bochechas de água e cuspia em mim, revoltado pela minha falta de participação. Rolava os olhos quando eu dizia que estava só assistindo. Voltava ele com seus longos monólogos sobre a importância de se atirar na vida antes que a vida escapasse por entre os dedos e todas aquelas coisas que eu ouvia desde o primeiro dia que deixei aquele furacão de calças rasgadas e botas plataforma desengonçar a minha vida.
Terminávamos a noite fugindo juntos, ele vestindo apenas as calças justas e eu correndo com o resto dos seus trapos. Ele ria. Ele ria sempre, alto, livre. Ele era a liberdade. E tinha seus dedos entrelaçados com os meus. Era suficiente.
Mikael na chuva. Uma pintura encharcada, de olhos tristes e boca trêmula. Tinha as roupas apertadas contra a pele perfeita e os cabelos, outrora cheios de cachos louros e volumosos, jaziam murchos nos ombros. Nunca o havia visto tão frágil.
Tinha um cigarro na mão, como não podia deixar de ser. Estava apagado, mas ainda estava lá.
Um garrafão de vinho quebrado no chão explicava os dedos visivelmente feridos que ele ostentava. Tinha a face rubra e eu sabia que ele estava chorando. Esperei pelo que viria.
Você nunca será mais bonita do que é para mim agora, veio a fala cantada que eu tanto amava ouvir, carregada de pesar. Exatamente por isso é hora de ir.
Essa vida não é mais do que meia dúzia de fatos costurados e alguns amores perdidos nas esquinas. Eu lembro de Mikael chorando ao me dizer que precisava partir, que o mundo o esperava, e eu nunca soube o porquê.

Eu acendo um cigarro e penso que queria dividi-lo com ele.
Mas não sei aonde ele foi.

Sunnie.
30/07/2010
Mikael, desenhado pelo delicioso Ell. Muito obrigada, meu amorzinho.
Mikael rocks

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6 thoughts on “Sobre o que nunca foi embora”

  1. Ai, Sunnie. Ai, Sunnie ;_; Os personagens que você cria são tão fortes, prendem a gente, mesmo num texto “pequeno”. Como você consegue fazer isso? ._. Parabéns, parabéns ;;

  2. Sun escreve bem. É quase um pleonasmo. Sem palavras pro quanto eu gostei desse texto, é.
    “Essa vida não é mais do que meia dúzia de fatos costurados e alguns amores perdidos nas esquinas. Eu lembro de Mikael chorando ao me dizer que precisava partir, que o mundo o esperava, e eu nunca soube o porquê.”

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