Ode ao amor findado


Victória era encantadora. Se eu pudesse defini-la com um única palavra, seria essa: encantadora. Nenhum outro vocábulo traduziria tão bem a essência daquela mocinha de pouco mais de um e sessenta de altura e bem mais de sessenta e um de peso.
Eu gostava da Victória. Ela sorria com todos os dentes, tinha uma voz pornográfica e um vocabulário pouco refinado. O jeito dela às vezes me incomodava – a forma como ela resmungava e fazia caretas quando queria que lhe voltassem os olhos -, mas eu a compreendia. Ela precisava de atenção e não hesitava em pedi-la.
Victória tinha olhos miúdos e cílios espetados. Suas bochechas, naturalmente grandes, estavam sempre acentuadas por um caricato pó cor-de-rosa. Por diversas vezes pensei em avisá-la, convencê-la a parar de se pintar (já que, obviamente, ela não o sabia fazer), mas sempre desisti. Aquilo a fazia sentir bonita. Quem era eu para dizer o contrário?
Ela era vaidosa. Estava sempre gastando suas moedinhas com cremes e óleos e sei lá o que mais. Tinha uma coleção de esmaltes coloridos e enfeitava seus dedinhos roliços com cores berrantes e anéis de plástico. Todo mundo a achava honestamente ridícula, mas eu não. Eu via potencial naquela menina desajeitada e de gosto duvidoso. Não sei se eram as semelhanças ou as discrepâncias entre nós dois que nos aproximavam, mas eu não conseguia ignorá-la.
Hoje acho que deveria tê-la amado mais. Victória precisava de reafirmação. Sempre pedia com os olhos “me ama, por gentileza”, e eu nunca dizia nada. Fingia que não ouvia suas súplicas mudas. Eu errei. Eu devia tê-la dito que me importava, que a aceitava mesmo com o seu choro copioso e sua necessidade de ser protagonista e que ela era linda. Linda, absolutamente linda.

Victória passou ao meu lado há algumas horas. Vi o contorno dos seus ossos quando ela girou o corpo para olhar uma vitrine de vestidos e senti meu peito doer. As pernas, outrora redondas e leitosas, haviam afinado e adquirido uma coloração que variava do amarelo ao laranja. Os quadris, antes grandes e cheios, estavam estreitos e proeminentes. Eu via o ilíaco sob o vestido de lycra vermelho. Seios fartos despontavam acima do abdômen reto. Suas saboneteiras gritavam.
Meu cigarro caiu no chão.
Victória voltou seus cílios enormes para mim e sorriu um sorriso contido de quem não sabia o que fazer. Pensei em dizer que a amava, mas seria mentira. Para fazê-lo, eu precisaria dos anéis de chiclete, dos cordões de lata batida e do cabelo que cheirava a creme de amêndoa. Todo o resto não era o bastante.
Acenei e girei nos calcanhares, condoído, com os olhos cheios. Vesti meu luto. Victória estava morta.

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8 thoughts on “Ode ao amor findado”

  1. Victória me lembrou você, Sunnie, num bom sentido, claro. Pelos anéis, esmaltes e maquiagens. Não sei se você se inspirou em si mesma; só desejo que a Sun não morra como a Victória… Ótimo texto, você é foda.

  2. “Não paro de me impressionar com seus textos, pára de ser foda, mano. ):” Sou obrigada a quotar. Eu sempre leio os textos esperando uma narrativa pouco surpreendente, para me deparar com o final e perceber que estou sorrindo. Acho que sou assim com todos os textos que leio, mas nem todos têm realmente o poder de me fazer sorrir. Sua escrita fascina, apesar de eu achar que isso está tão óbvio para precisar ser falado.

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