Cotidiano

E doía. Doía, mas ela não mostrava. E quando sorria (aquele sorriso meio murcho de quem não quer sorrir), morria um pouco mais. Mas não dizia. Sequer demonstrava. Assentia, desviava os olhos, brincava com o fio solto da blusa porque, você sabe, essas roupas andam tão vagabundas hoje em dia. Balançava a cabeça e mentia. E machucava-se mais nos contos-de-fadas que inventava. E costurava os pontos – cada palavra uma ferida aberta – com as mãos trêmulas.
Sentava para ver a vida passar, as mãos fechadas sobre o colo, o coração sob os pés. Sob os pés dele. E ela não se importava, desde que fossem os sapatos do outro a pisar em seu orgulho. Era ele; ele podia. Ele sempre pôde tudo.
Ela fechava os olhos para não vê-lo feliz. Esfaqueava-se em silêncio com os dedos nos dedos e os lábios nos lábios, recolhendo-se com seu semblante pálido e enfraquecido. Um ponto preto num cenário colorido.
Ele era o mais próximo de “paraíso” que ela poderia encontrar, com aquela pele branca linda e os cabelos repicados. Por mais demoníaca que fosse a sua figura, ela o enxergava como uma pintura. Um anjo caído de algum quadro. A obra prima.
Ele transfigurava-se numa besta quando queria fazê-lo. Torturava com as palavras e um meio sorriso. Mas em vez de correr, ela caía diante dele em adoração, em encantamento. E oferecia seus pés descalços ao caminho das brasas como quem caminha de volta à casa. Ele era o inferno, ele o destruía. Mas ela permitia. Era ele. Ele sempre pôde tudo.
E ele puxava os pontos para fazer sangrar. E puxava-os como quem puxa as amarras de uma marionete, movimentando-o tal qual seu gosto. E ela não negava (embora soubesse que, ao apagar das luzes, faria poeira na estante). O fantoche dançava nas mãos dele, lançava-se no chão com um gesto dos dedos. Humilhava-se por migalhas da atenção – e ele sorria. E não-raro soltava as cordas, apenas para ver, com aquele prazer ridículo, que ela voltaria depressa.
Era ele que estava lá, em suas orações (embora ela não ousasse dizê-lo em voz alta). Dia e noite, como um mantra. ela pedia por ele antes de adormecer (esperando, sonhando que um dia ele pudesse fazer o mesmo). Era o seu rosto que via ao pedir por um milagre ou esconder a face rubra na almofada. Ele era a prece não-atendida.
E quando ela tentava resistir – agarrava-se à fina linha que a separava do abismo -, ele chegava com a voz mansa e os dedos enluvados, chamando-a de volta para perder-se nele e em seus floreios. De longe. Bem distante, para que ela nunca tivesse o suficiente. Para que não pudesse conceber a idéia de perdê-lo sem ter tido a visão de tudo o que ele tinha a oferecer.
Não era humano ou justo, mas ele podia. Ele sempre pôde.
E ela, entregando-se de braços abertos, dissolvia-se ao vê-lo sorrir. E desaparecer, tão logo.

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11 thoughts on “Cotidiano”

  1. “E doía. Doía, mas ela não mostrava. E quando sorria (aquele sorriso meio murcho de quem não quer sorrir), morria um pouco mais. Mas não dizia. Sequer demonstrava(…) E machucava-se mais nos contos-de-fadas que inventava. E costurava os pontos – cada palavra uma ferida aberta – com as mãos trêmulas.”

    SUNNIE. SUNNIE. SUNNIE. Por que você é assim? Por que consegue escrever de uma maneira tão linda e doce e trágica tudo que nós pensamos e/ou sentimos? Você é incrível, sério.
    Lindo demais, mais um dos meus textos preferidos ;_;

  2. Somos fantoches nas mãos dos outros, nas mãos do mundo.
    “E ele puxava os pontos para fazer sangrar. E puxava-os como quem puxa as amarras de uma marionete, movimentando-o tal qual seu gosto. ”

    Eu não canso de dizer o QUANTO admiro tua escrita, porra!

  3. Putzgrila

    Eu já tava indo dormir quando vi esse texto no Reader. Não conseguir dormir mais. Genial, incrível. Totalmente concordo com o que vc escreveu. E como vc escreveu bem, como vc fez a gente sentir tudo isso…

    Sério, vc se superou…

    Parabéns….

    Eu até escrevi algo depois de ler esse texto. Não ficou espetacular, mas mesmo assim vc ganhou muitos pontos comigo

    Você é foda

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