Heróis

“Eu, eu serei rei
E você, você será rainha
Embora nada possa afastá-los
Nós podemos derrotá-los, apenas por um dia
Nós podemos ser heróis, apenas por um dia

[…]

Porque nós somos amantes e isso é um fato
Sim, nós somos amantes e ponto final

Embora nada possa nos manter juntos
Nós podemos enganar o tempo
Apenas por um dia
Nós podemos ser heróis, para sempre e sempre
O que você acha?

– Heroes, David Bowie


Segurou a mão dele com força, os dedos apertados. Os olhos se encontraram, cúmplices como sempre, dividindo a certeza. Não sabiam de quê, mas sabiam que ela estava lá.
– Sabe – o outro disse, baixinho, quebrando o silêncio que haviam construído. Paulie fez um gesto com a cabeça quando percebeu a sua hesitação, pedindo para que ele continuasse a falar. – A cidade parece tão linda daqui de cima.
– É – concordou, a voz fraquinha como a dele, quase como se estivessem dividindo segredos. E talvez estivessem. – Ela parece tão imaculada. Tão livre de toda essa sujeira.
Eddie apertou a mão do moço e suspirou pesadamente, levantando-a para poder depositar um beijo sobre ela. Paulie sorriu, lisonjeado pela carícia. Não era de forma alguma inédita, mas não perdia a doçura.
– Eu me sinto gigante – confessou Eddie, voltando sua cabeça para os prédios altos e para as janelas que refletiam luzes coloridas. – Eu me sinto gigante porque o mundo parece tão pequeno. Tão indefeso diante de mim. E de repente ele não machuca mais.
– É – Paulie engoliu em seco, as palavras penetrando na carne, agudas. Manteve o olhar nos letreiros luminosos e nas pessoas que caminhavam lá embaixo, esbarrando umas nas outras, trocando sorrisos e beijos. Quis fazer o mesmo. Quis estar lá, mãos nas mãos, sem medo da vida, sem medo da retórica. Não podia. Aproximou-se do outro devagarzinho, quase como se não soubesse que seria bem recebido. Relaxou quando seus ombros se tocaram e Eddie o manteve próximo. – É. Agora não dói.
Houve novamente aquele longo momento de silêncio. Não era tenso, tampouco incômodo. Era um silêncio amigável, preenchido pelo sentimento de aceitação.
– Você sabe que nós não precisamos deles, não sabe? – Eddie disse, de repente, atraindo a atenção do companheiro para sua face relaxada. – Nós não devemos nosso corpo a eles. Nós não devemos nossos corações a eles. E eu não devo dar justificativas do meu amor por você a ninguém além de você. É entre nós dois, desde o início. Nunca foi entre nós e os outros.
– Eu sei – Paulie concordou, mordendo o lábio inferior, a mente passeando pelas últimas recordações. – Eu sei. Mas nós estamos nessa cidade. E nós fazemos parte disso tudo.
– Eu não preciso que eles gostem de mim – Eddie cortou-o com suavidade, dando os ombros. Paulie franziu o cenho de leve. – Eu queria erguer a sua mão no meio deles e dizer que somos maiores do que isso. Maiores do que eles acham que nós somos.
– Nós somos heróis – disse Paulie num misto de dor e diversão, a voz um tanto vacilante, soando rouca. – E o mundo está aos nossos pés. Pelo menos por hoje.
Paulie tombou a cabeça no ombro de Eddie, os dedos ainda entrelaçados com os dele. Sentiu-o pousar a outra mão sobre seu rosto, acariciando-o com ternura, quase como se o consolasse.
– Eu não me sinto culpado – Paulie embolou-se nas sílabas, a respiração trancada na garganta, fazendo companhia ao pranto engolido. – Eu os ouço todos os dias, mas não consigo ver o que eles vêem. Eu não vejo nenhum monstro no espelho e não acho que exista uma grelha me esperando no inferno.
– Perdoe-os, Paulie – Eddie virou o rosto, deslizando de leve a ponta do nariz sobre os fios cheirosos do cabelo do amado. – Você tem que ter pena. As pessoas não nascem cegas… Elas ficam cegas. E não entendem quando você diz isso. É mais cômodo acreditar no que é dito.
– Antes fossem indiferentes – desabafou, fechando os olhos, entregue ao carinho delicado que recebia do amante. – Antes se esquecessem de nós. Antes fôssemos invisíveis. Aí eu pegaria a sua mão em público. E a levantaria alto, porque é isso que importa.
– Você pode levantá-la agora – Eddie sibilou, compreensivo, censurando-se mentalmente pelas lágrimas nos olhos. – A cidade é nossa testemunha.
Paulie emudeceu. Eddie fungou, meio sem jeito, não querendo que ele percebesse o impacto daquelas sentenças. Paulie sabia, entretanto. Compartilhavam um coração partido, maculado pela discrição, condoído por não poder se mostrar. E mesmo que não dissessem, desejavam todas aquelas coisas clichês que não poderiam ser. Desejavam o programa de sábado à noite, o passeio descompromissado, a leitura conjunta, um nos braços do outro, no parque da cidade. Tudo aquilo que lhes era negado pelos olhares e gestos.
– Somos enormes – Eddie apertou-o de leve contra si, percebendo que o outro assentia. – E seremos enormes amanhã.
– Enormes – concordou Paulie, então, afastando-se dele devagar. Olhou-o por detrás dos cílios molhados e sorriu. – Então eles vão entender.
– Seremos realmente heróis, então – pôs a mão do pequenino sobre o seu peito, sabendo que ele sentia as palpitações desesperadas. – E eles verão tudo o que não quiseram ver antes.
Encararam-se. Havia dor e havia medo, mas estranhamente havia paz. E aquilo fazia sentido, no final das contas. Paulie deslizou a língua pelos lábios e deixou o ar escapar pela boca entreaberta.
– Você quer desistir? – Eddie levou os dedos longos para a face rubra do jovem, seu próprio rosto livre de cobranças. Paulie sorriu e negou com a cabeça.
– De você? Nunca – murmurou, cobrindo a bochecha do homem que amava, orgulhoso de tê-lo tão perto, tão seu. – Você é a única coisa certa que eu fiz na vida.
Entreolharam-se, mudos. Eddie abaixou o rosto e permitiu que os lábios se encontrassem num beijo calmo e controlado. Não havia pressa. Não havia represália. Encontraram-se ali, bocas pressionadas, pensamentos unidos. Corações em uníssono. E reafirmaram, sem qualquer sobressalto, o que deveriam fazer.
Afastaram-se. Declararam-se com os olhos que tagarelavam, as bocas seladas. Dividiram um último beijo rápido.
Correram e atiraram-se do telhado.

A cidade os abraçou.

Anúncios

4 thoughts on “Heróis”

  1. Você já meu viu surtar com esse texto e eu vou surtar novamente, com todo o respeito.

    “Correram e atiraram-se do telhado.

    A cidade os abraçou.”

    Não me canso de me encantar com esse final, com essas palavras tão simples e com um poder tão absurdo. E me encanto com essa história toda, aliás ;_; Eu acho esse texto um dos mais… poderosos? que você já escreveu. Sou apaixonada por ele, juro ): se pá imprimo e ponho no meu mural do quarto HEHE. Sério, Sun, ai você acaba com meu coraçãozinho ;_;

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s