Cara, sabe o que é?  Eu fumo, bebo, trabalho num emprego meia boca que me dá o dinheiro do uísque, tenho uma vida sexual que não é lá o que eu posso chamar de ideal, mas pelo menos ela existe… Ainda assim, acho tudo uma droga. Eu tenho uma consciência que me impede de dizer que acho essa vida justa, que gosto dessa rotina de levantar atrasado, escovar os dentes tomando banho, tomar café já pensando no almoço, sair correndo de casa com uma meia de cada cor e ficar parado uma hora e dezesseis minutos e trinta e dois segundos naquela desgraça de trânsito. Eu sou desses, cara, eu não gosto de fingir que tá tudo bem. Eu não gosto de apontar lápis naquela máquina que faz barulho. Eu odeio barulho de dedo e teclado por horas a fio. Eu gosto de silêncio. Curto me entupir de café porque cafeína é bom, não porque tenho que me impedir de dormir em cima do triturador de papel e perder um dedo. Não gosto de reuniões. Pessoas desenhando estratégias para convencer pessoas a fazer coisas que elas nunca fariam se estivessem em juízo perfeito me deixa enjoado, cara. Que houve com aquela filosofia new age lá de fazer todo mundo feliz e não enganar ninguém? Eu sou meio hippie nessas horas. Gosto de me depilar, mas sou meio hippie. Eu queria que todo mundo dissesse a verdade, que todo mundo andasse a pé. Menos carro na rua é meu sonho. Não ser acordado por buzina estridente candidato berrando vote em mim na porra do número setenta e oito mil quatrocentos e vinte e nove ponto infinito, argh, tô cansado. Tô cansado desse excesso; é muito choro contido, é muito amor reprimido, é muita úlcera de preocupação, é muito medo de perder. Eu queria que ficasse claro que ninguém é objeto de ninguém. Não se perde algo que não é seu por direito ou registro. Com esse puta medo de perder se perde tanto, cara, mas tanto. É muito romance de livro barato escrito em toda esquina, é muito amor eterno de meia hora, eu cansei. Eu quero uma vida que não se meça com algarismos, certo conforto sem muita ostentação, um cachorro bem gordo no quintal, quero essa alienação gostosa de não dever, não ser, não precisar. Não usar, não comprar, não ter. Não ter que nada além de me bastar na felicidade de ser porra nenhuma além de um cara desestressado, com pancinha e calça frouxa, que não precisa acordar com a desgraça do setenta e oito mil quatrocentos e vinte e nove no ouvido às seis e quinze. Quinze minutos depois do horário que eu deveria, aliás.

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7 comentários em “”

  1. Acho que é meio o sonho de todos nós, né? Se livrar dessa vida de trabalhar das oito até às cinco, com uma hora de almoço e pegar trânsito e chegar em casa quase às oito da noite e ver que não tem mais quase dia pra aproveitar e que tem que acordar às seis amanhã, de novo e de novo e de novo. (beleza que eu ainda não tenho essa vida, mas tô quase na idade D:). Todo mundo deseja jogar isso tudo pro alto, ser feliz de outra forma, conseguir o que necessita de outra forma. Mas meio que é impossível haha. Se todos nós vivêssemos dessa maneira o mundo meio que pararia e explodiria.

    Desculpa pelo comentário grande, empolgay :(((((((
    ótimo texto, como sempre, Sunnie linda *0*

    1. Eu tenho me irritado muito com essas coisas, sei lá o motivo. Algo em mim pede para que eu fuja para as montanhas e crie ovelhas. Huaheouaehoa ._. Obrigada, meu bem! Nhac imenso pra você. [senta em cima]

  2. Engraçado isso. Depois do mestrado eu tomei isso como objetivo de vida. Eu não aceito mais trabalhos que tenha de acordar cedo. Trabalho ate tarde da noite, mas fico dormindo até a hora de acordar. Não aceito trabalho que eu tenha de viajar no horário de pico. Eu não preciso disso. Se aceitasse, ganharia pelo menos cinco vezes o que eu ganho, mas o que eu tenho me basta.

    Eu vou pro trabalho de bicicleta ou de metrô, no meu ritmo. Estresso às vezes, como todo mundo, mas muito menos do que as pessoas que eu conheço. Vivo a vida, na velocidade certa. Não tenho carro, pq não quero. E tenho bons amigos, que enchem meu saco de vez em quando…

    É isso

    Parabéns pelo ótimo post, again

    Estou ficando redundante

  3. Algo em mim pede para que eu fuja para as montanhas e crie ovelhas. [2]
    Compartilhamos do mesmo sentimento, então (sobre o texto)
    Parabéns Sun, adorei cada linha =]

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