Rascunho

– Quando eu era pequeno, eu pensava: preciso sair.
– Até aí, normal.
– Eu tinha uma ânsia que me engolia, que me tornava escravo de um futuro que me parecia impossível de alcançar. Vivi anos me perguntando o motivo pelo qual eu não conseguia me sentir parte de nada. Praguejei. Esses lugares que nos fecham, que nos privam da vida lá fora, ah, esses lugares. Um dia eu vou embora e vou deixá-los para trás e nada vai me impedir de me sentir pateticamente feliz com tudo o que a minha nova vida me dará.
– …
– Quando eu fiquei moço, eu saí.
– Felizmente.
– Agarrei-me aos meus sonhos de menino, alucinado pela idéia de que finalmente, finalmente pertenceria a algum lugar. Fiz minha mochila com o necessário e o superficial e pensei que estava realizado, que enfim calaria a voz aflita que me seguiu por anos.
– E como é se sentir realizado?
– Eu estava errado.
– Oh.
– Perguntei-me qual poderia ser o problema. Por que as cidades e rodovias me tornavam minúsculo? Por que as ruas eram sempre iguais? As casas me engoliam a cada passo que eu dava.
– Eu… eu… uhn…
– Caminhei hoje sozinho pelas vielas com as quais sonhei por toda a minha existência e eu vi. Eu vi.
– Viu o quê?
– O problema não era o lugar, cara. Sou eu.

Anúncios

6 thoughts on “Rascunho”

  1. Eu estou no meio do texto, digamos assim. Quase colocando a tal mochila nas costas. Tenho medo de virar o final do texto. Descobrir que o problema sou eu e que o lugar não importa.

    ótimo texto, muito bom mesmo, Sun. Se bem que isso você já sabe :’)

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s