Charlie

Charlie disse que tudo ficaria bem; eu me forcei a acreditar.

Ele me disse que às vezes se entra nas coisas por amor e se sai delas também por amor. Eu o chamei de imbecil na época, mas hoje me arrependo. Quis bater nele porque ele era um filho da puta conhecedor do mundo. Quis gritar por ele não ter me deixado aceitar uma mentira agradável em vez da verdade que me cortava em fatias.

Charlie me disse que a vida não era um conto de fadas e que meus olhos murchariam com a tristeza que os anos trariam. Pensei em usar óculos escuros, mas pouco depois descobri que seria inútil. Certas coisas não podem ser disfarçadas – certos artifícios são simplesmente tolos, uma vez que só cobrem a superfície. O interior apodrece. E fede.

Charlie mastigou a minha realidade e a cuspiu em mim. Chorei e senti seus dedos em meu cabelo. Ele me batia e afagava e eu o odiava por isso. Mas eu precisava dele e ele precisava da minha presença. Acho que eu o fazia lembrar de si mesmo. Ou talvez não. Só sabia que eu era importante para ele; disso, eu sabia bem. Ou achava que sabia.

Charlie entrou na minha vida por amor.

E saiu dela sem amor algum por mim.

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2 thoughts on “Charlie”

  1. Às vezes dá vontade de desistir se saber, de pensar, de entender. Vontade de ser ignorante porque isso supostamente traz felicidade – ou te poupa um montão de problemas, com certeza.
    Mas aí dá vontade de ser livre, e não dá pra ser livre presa à ignorância, ao medo de lidar com as coisas. Nem sei se dar pra ser livre de alguma forma.
    Fantástico o texto, Sun.

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