Coadjuvante

Ele colocou as mãos no rosto. Respirou. Respirou de novo. Seus olhos foram para a imagem meio distante. Tinha os lábios trêmulos, os dentes fixos na carne e um coração esmagado.

E lá estavam os dois, naquele enlace terno dos que amam – dos que não se preocupam com o pesar dos corações alheios se estiverem satisfeitos com a própria situação. E lá estavam, dedos nos dedos, sorrisos trocados.

E ele? Em que parte daquela brincadeira de mau gosto se encaixava? Entraria como o bom amigo, o mártir que se entregara com a expressão suave de quem temia em silêncio? Entraria como o santo de boca fechada, que engolia as lamúrias em função do prazer de outrem?

Oh, mas a vida é boa. Como você reclama de barriga cheia. Um coração aqui, um amor acolá. Quem se importa se você está ferido? Você sempre tem um corpo para usar na próxima esquina.

E a próxima esquina é mesmo próxima. Mas a cada passo, você se afasta. E suas mãos se perdem nos seus cabelos – negando-se a puxar outros cabelos. Preferível perder-se nos próprios sussurros a ouvir sussurros em vão.

Sentou-se. No banco mesmo. Tão próximo. E fez aquele gesto irritante com a mão, sorriu o sorriso forjado dos apaixonados. E balançou como uma criança, a risada que silenciosamente dizia eu-espero-que-este-ser-que-o-segura-como-queria-segurar-morra sustentando-se numa nota quase eterna. E ele riu, é verdade, preciso de um cigarro. Um cigarro só. Com cianureto. Mas cianureto é líquido. Ele acha. Nunca viu cianureto. Mas queria ver. Seria útil. Mas não viu. Então, só o cigarro serviria.

E eles se beijavam. Beijos deviam ser proibidos. Porque sempre é bom para quem compartilha e ruim para quem assiste, principalmente quando quem assiste é quem deveria compartilhar. Egoísmo? Pois que seja.

É, um cigarro. Um cigarro e cocaína. Nunca havia experimentado cocaína, mas diziam que dava um barato bacana. Tirando da realidade, devia valer a pena. Queria que ela o transportasse para qualquer lugar – a vida é tão banal, mesmo. Queria que ela o transportasse para a vida noutra vida, mesmo que aquilo não fizesse sentido. Podia ter drogas à mão. Podia não ser tão careta.

Podia beber um pouquinho. Um pouquinho mais do que devia. E acordar noutra cama. E acordar numa banheira. Ou nem acordar. Talvez fosse radical. Talvez fosse drama. Talvez lhe dissessem que balançar o copo demais pode derramar a água. Talvez não dissessem nada – ele mesmo não diria nada a ninguém. Melhor silenciar o pranto. Vai passar. Não vai? Não sabia. Queria. Devia. Não sabia. Não iria.

E eles se olhavam. Com aqueles olhares mudos que diziam que não ia durar. Ou que ia durar demais. Ele sabia o que queria enxergar – e, acima de tudo, sabia que via errado. Sabia e não queria saber – e lhe bastava a certeza mentirosa de que era tudo um pesadelo. Bastava-lhe a vontade de que fosse – mesmo sabendo que não era.

E não fazia sentido mais. E não fazia. E doía mais pensar nisso. E doía.

Sorriu outra vez quando os dois se voltaram para sua figura. Percebeu que admiravam os seus olhos borrados. Escarrou mais uma mentira – dessas pequenas, quem há de notar? -, piscou mais uma vez. Olhou, praguejou contra a chuva que caía. Chuva. Odiava chuva. Ou gostava agora. Não sabia – não importava. E limpou a fronte com a manga da blusa preta, levantando-se num salto. Quase feliz. Quase. Nem um pouco. Nem mesmo perto.

Acenou.

Acenou um adeus.

E nunca mais se deixou ver.

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