Aquilo que sempre falta

Mas espera, antes de você bater a porta e nunca mais olhar para a minha cara, existe muita coisa que eu quero dizer. Eu sei que não deveria ter demorado tanto tempo assim mas você por favor por favor mesmo você precisa entender que eu não tinha coragem de chegar olhar nos seus olhos e falar que queria só você pro resto da minha vida porque cara, eu já acreditei em tanto para sempre que chega a dar dor. Entende? Eu já falei para sempre antes e não foi para sempre, você percebeu? E sabe até te digo que queria poder dizer para sempre para você porque, bem, porque você em mim é para sempre. O que você botou em mim eu não sei o que foi mas foi lindo. E eu sou uma pessoa tão fraca com as palavras tão perdida nos significados tão aquém da gramática correta que não acho que possa te explicar isso sem me repetir e me remendar e gaguejar e me atirar em cima de você e te cobrir de beijos. Mas desculpa – eu não posso. É verdade você tá certo me desculpa você quer ir embora e eu vou respeitar isso mas eu quero que você saiba que cada segundo que você respira me dá vontade de viver mais um segundo. Que cada lembrança dos seus dedos do meu cabelo vai me manter aqui por mais tempo. Que eu não sei me dar rumo sozinha porque cara isso é difícil pra cacete. Nunca pensei que fosse tanto. Mas não, eu não tô querendo dar uma de João sem braço, puta figura estranha essa né, eu também sempre achei, mas não, não tô querendo ser João nem José nem porra nenhuma de ninguém. Eu não quero sua pena não eu acho que posso superar isso. Eu sou fortinha, já sei amarrar meu cadarço e já consigo dormir no escuro. Eu sou grandinha pra vencer quase todos os meus medos de criança mas meus medos de adulto são piores. Acho que preferia fantasmas e bonecos assassinos mesmo. Sei lá. Não dá pra lutar contra o espelho não. A gente não vai pro inferno se não acredita nele. E como é que a gente foge da gente mesmo? A gente deixa de se acreditar e se encontra todo dia e não se resolve, por quê? Não é esse o caso você não tem nada a ver com as minhas questões existenciais não-conformistas quase anarquistas meio new age não, fica tranqüilo, isso é tudo coisa da minha cabeça. O que eu quis dizer mesmo antes é que eu não tô tentando te fazer ficar condoído tipo ah, que peninha, que cruel da minha parte deixar essa menina perdida sozinha – não! Não cara não quero sua piedade não muito obrigada mas guarda a gorjeta pro próximo. O que eu quero de você não são esses sentimentos mastigadinhos que você dá pra qualquer um que tá obviamente muito ferrado. Não tô querendo confete não. Acho tedioso ter que chorar as pitangas ligar pro disk suicidas desocupados e pedir pelo amor diz que eu sou linda gostosa sensual e que você quer me fazer a mulher mais feliz do mundo diz diz que eu sou tudo o que você sempre quis que eu posso conseguir tudo o que eu quero que o sol vai brilhar pra mim um dia e ah! Eu não quero não tô cansada desse papo de preciso buscar forças do âmago do meu útero pra me provar que eu sou maior do que eu sou de verdade. Eu só quero mesmo que você entenda que eu não estou te cobrando pelo tempo vivido pelos discos compartilhados pela louça quebrada pelo meu casaco de  veludo que você esqueceu na máquina de lavar roupas pelos ingressos de cinema pela comida indiana de sábado à noite não tô te cobrando por nada. Não tô te cobrando por tudo o que eu te dei e você me deu nem espero que você me deva algo porque eu não te devo nada também mas eu acho que tem tanta coisa cara mas tanta tanta coisa que ficou morta pelo caminho que ficou despedaçada na estrada e a gente nem cutucou pra ver se tava viva, se podia reviver, sabe? Mas esquece, agora você vai bater a porta porque eu sei que é isso que você quer fazer e você vai embora com essa meia dúzia de roupas que você tinha deixado aqui em casa com os seus cadernos de rascunho e poesia e eu vou ficar encarando a parede e pensando, ah, meu Deus, como teria sido se eu tivesse conseguido dizer tudo. Como teria sido se você não tivesse acabado de chamar o elevador. Ah, como teria sido.

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6 thoughts on “Aquilo que sempre falta”

  1. Esse texto me lembrou TANTO Caio Fernando :’) De verdade. Aliás, o seu tipo de escrita me lembra muito ele ;_;

    “mas eu acho que tem tanta coisa cara mas tanta tanta coisa que ficou morta pelo caminho que ficou despedaçada na estrada e a gente nem cutucou pra ver se tava viva, se podia reviver, sabe?” (eu sempre tenho que quotar alguma coisa, né? desculpa, é que eu não resisto mi .-.)

    Ótimo texto, como sempre. E estou esperando o seu livro ser lançado, viu, dona Sunset.

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