Na carne

Eu gosto de tatuagens. Eu realmente gosto. Desde pequena.

Lembro dos meus olhos imensos em cima dos braços alheios, lembro das minhas tentativas de tocar na pele marcada de outrem porque aquilo, aquilo que eu não sabia o que era até então, era lindo. Encantador. Algo além do divino. Algo que eu queria em mim.

Anos depois, curvei-me sobre a mesa do tatuador. Aquelas fisgadas me foram bem-vindas.

Eu fechei os olhos, eu as aceitei. Eu as quis. Eu as senti. Eu adorei.

Naquele momento, enquanto a agulha deslizava por mim, não doeu. Não doeu mais. Tudo o que havia dentro de mim – todo o furacão que eu havia escondido debaixo da minha imagem de calmaria – cessou. Os meus fantasmas calaram. Eu fechei os olhos. Eu quis chorar. Eu pensei em chorar. Eu não chorei. Eu fui forte. Eu chorei depois. Eu chorei sozinha, quietinha, e não vou dizer o motivo. Eu quis chorar. Eu choro ainda. Eu choro nesse instante, num misto de saudade e orgulho. Orgulho do que passou. Saudade porque voltou a doer.

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13 comentários em “Na carne”

  1. Cara, não que eu tenha nada a ver com isso, mas não dá pra fugir da dor. A dor faz parte. Digo, é claro que sua dor é diferente da minha, mas toda dor faz parte e nunca some. As pessoas só aprendem a lidar com ela, e lidar com ela é diferente de fugir dela.
    De novo, eu sei que não tenho nada a ver com isso, mas acho importante dizer.
    O texto é ótimo, como sempre.

  2. O lance é que eu não acredito em redenção, mas em negação. Enfim, muito longo e pessoal explicar isso, mas me faz ler seu texto de maneira diferente. Não sei o que você quis dizer – não dá pra saber nunca o que o autor quis dizer – , sei o que eu li, então não sei o que é isso pra você.
    Enfim, me afeta de forma diferente do que afeta outras pessoas (como o poetamatematico). Esse é o lance de nenhum texto estar completo até ser lido, afinal, não é?

      1. Posso tentar falar, mas não sei se vou me fazer entender. Não custa tentar.
        A questão é que “redenção” me soa como algo muito medieval, como “bem” e “mal”. É para mim como uma espécie de permissão alheia (divina, se pensarmos no sentido literal e original da palavra) pra ir do mal ao bem – coisas em que também não acredito.
        Me incomoda que soe como uma libertação porque é externa e liberdade nenhuma pode ser concedida – a liberdade é interna. Ninguém pode dar liberdade a ninguém, e eu entendo redenção com esse sentido.
        Além disso, cicatriz é cicatriz. Não se pode apagar os erros, ou o que dói, nada. Se pode negar e negar até afirmar, mas não desconsiderar. Mesmo porque, para negar, é preciso considerar, e é preciso negar ou não há mudança.
        Acho que o ponto é esse: cicatriz é cicatriz. Não há libertação alguma em apagar – maquiar, porque não acho que seja possível apagar completamente – a cicatriz, mas em negá-la. Por isso digo que não acredito em redenção, mas em negação.
        Agora, talvez seja uma questão de vocabulário; porque existe perdão, claro. Mas, mesmo o perdão, “tem efeito apenas anti-séptico: cura a ferida, mas não remove a cicatriz”, para usar a frase do Dilson de Oliveira Nunes.
        Espero ter conseguido me explicar bem, porque é uma questão um tanto difícil e bastante ideológica. 🙂

      2. OK, ok…

        Entendi. Só discordo de levar as palavras tão ao pé da letra, tipo ir na origem etmológica e pans. Mas entendo muito teu ponto de vista e respeito. E é bom a gente vir discutindo num texto foda que nem esse que dá tantas interpretações diversas…

        É isso

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