How soon is now?

Uma, duas, três, quatro. Mikael me contava tudo com aquela risada ébria que eu tanto amava e odiava ao mesmo tempo e eu só bebia mais um gole do meu chá fumegante. Cinco, sete, nove e ele perdeu a conta depois de algumas horas e só deixou acontecer. Fechou os olhos e deixou que seus quadris girassem pela pista abarrotada. Calou a mente e deixou que os lábios falassem contra os lábios dos outros. Acho que foram treze, ele comentou, olhando para o teto, uma marca de batom visível debaixo de seu queixo. Acho que foram treze ou catorze ou vinte e sete, não sei agora, mas foram bocas pra caramba.

E eu bebo mais chá e olho para ele pensando que gostaria que fosse diferente. E eu só balanço a cabeça, porque não existe nada que eu possa fazer além de balançar a cabeça e beber do meu chá sem gosto. E Mikael parece satisfeito. Não feliz, mas satisfeito. E eu não devo dizer a ele que ele não tem qualquer razão para se sentir assim, porque eu sei que essa é a única coisa que ele ainda sente.

Eu senti muitas mãos em determinado momento, ele me conta e parece quase assombrado por aquela memória. Eu não sabia o que estava acontecendo, pensei que estivesse morrendo. Mas aí eu continuei a contagem e eu jurava que já tinha contado vinte, mas depois achei que tivesse contado só dezessete e recomecei do quinze. Só por garantia. Sei lá. Tinha uma pessoa lá com os olhos mais bonitos que eu já vi, sério, mas eu não sei qual era o nome dela. Eu sei que ela beijava bem. Ou sei lá, não lembro como ela beijava, eu já tinha bebido muito. Mas foram muitas mãos, ele repete e repete, balançando a cabeça loura.

E eu suspiro e penso em pedir para que ele pare de me contar aquelas coisas, porque cada palavra dele me dói na carne. Eu decido sorrir e mudar de assunto, mas ele parece disposto a insistir naquelas linhas.

Mas meu, é difícil, sabe? Cê entende? É difícil pra caramba, ele bufa e rola na minha cama, virando-se para me encarar com os seus olhos nublados. Eu tô procurando amor em um clube lotado e só consigo esse prazer momentâneo que nem nome tem. Sei lá. Podia ser Janete, podia ser Taylor, podia ser qualquer porcaria, eu só queria um nome. Mas eu não tenho um nome, eu tenho uma boca que não se identifica e dedos que me puxam o cabelo mas não me envolvem. Isso é esquisito pra cacete. E as pessoas falam que se você procura por alguém é só ir para uma boate dessas, mas eu acho que tô procurando a coisa errada ou estou na boate errada – mas cara, você entende? Eu só queria ser amado, meu, eu sou humano. O que é que é tão difícil assim?

Eu passo a mão no rosto dele e penso em dizer que não existe amor como o amor que ele quer, não mais. E que não existe amor fora do prazer  que não se identifica. Aquele segundo na presença de um estranho é todo o amor que gente como eu e ele recebe e a gente tem que se contentar. Eu suspiro e beijo-o no rosto e ele não espera que eu diga mais nada.

Eu sei lá, ele diz baixinho e me abraça as pernas com seus braços magrinhos, que não me acalentam nem um pouco, mas que servem para alguma coisa. Eu sei lá, gata, eu só queria não voltar pra casa de mãos abanando. As trinta e duas bocas não valem um coração.

Eu sei, eu penso em dizer. Mas Mikael, meu querido, você não tem coração.

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12 thoughts on “How soon is now?”

  1. Blé… é até covardia comentar depois de um post desses. Sunnie, vc é um talento raro…

    Que coisa! Quanta criatividade, quanta capacidade de sintetizar sentimentos exdrúxulos. E que chave de ouro!

    O que eu digo é um simples blé….

    É de inveja mesmo, vc é foda…

    1. Ah, meu bem, muito, muito obrigada. Não mereço toda a sua gentileza e carinho, mas fico realmente maravilhada quando você aparece por aqui. Você tem um talento ABSURDO e nada poderia ser mais gratificante do que a sua presença e palavras. Muito, muito obrigada mesmo. E VOCÊ é foda. Pra caramba.

  2. “E Mikael parece satisfeito. Não feliz, mas satisfeito. E eu não devo dizer a ele que ele não tem qualquer razão para se sentir assim, porque eu sei que essa é a única coisa que ele ainda sente.(…) Eu acho que tô procurando a coisa errada ou estou na boate errada mas cara, você entende? Eu só queria ser amado, meu, eu sou humano. (…) Eu só queria não voltar pra casa de mãos abanando.”

    Como vc consegue?
    Tudo o que eu queria é que vc estivesse por perto e fôssemos amigas ♥

  3. “Eu só queria ser amado, meu, eu sou humano. O que é que é tão difícil assim?”
    Seus textos são incríveis e você vem finalizando com umas frases incríveis, como eu lido com isso?
    “Trinta e duas bocas não valem um coração.
    Eu sei, eu penso em dizer. Mas Mikael, meu querido, você não tem coração.”

    Lindo demais, mesmo :’) Você é uma das minhas escritoras preferidas, cara, não tenho como negar, obrigada por escrever ;_;

  4. Aliáás, Sun, vou perguntar por aqui mesmo. Há bastante tempo, você colocou aquele texto maravilhosamente perfeito, meu preferido daqui até a eternidade (Sobre Tudo O Que Dói) num site, onde as pessoas divulgam seus textos/poesias/etc e você pode avaliar, dar recomendações e tudo mais. Lembro até que ele era verdinho. Pode me passar o endereço, por favor? ;_; Eu não lembro de jeito nenhum.

    1. Ahh, linda, você chegou a ver isso? Então, o texto não está mais no ar. Parece que, quando você manda para o site (chamado Autores e Leitores), ele só fica no ar durante um mês. Mas obrigada mesmo ._.

  5. Me deu um aperto no peito que eu nem sei como te falo.
    Impressionante, mesmo! Tão forte e tão fluido ao mesmo tempo, como se fosse o chá quente descendo pela garganta e queimando alguma coisa lá dentro.
    E lindo, mas lindo de um jeito doído que eu não sei se consigo sequer aceitar.
    Parabéns, Sun. Por esse e por todos, mesmo, porque cara. Nem sei.

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