Dez anos antes de hoje

Minha pequenina,

Devo dizer que hesitei. Não sou uma pessoa sensata na maior parte do tempo, então creia quando eu digo que o está contido nessa carta não é precipitado nem fruto de um rompante melodramático. Pensei muito em você nos últimos dias. Cheguei a vê-la de perto, mas me afastei quando corri o risco de me deixar envolver pelos seus encantos. Volta e meia a sua falta me rasga o peito, mas eu preciso aprender a lidar com isso.
Desculpe, menininha, por nunca mais ter atendido aos seus chamados. Olho por cima do ombro e te vejo ralada, com os joelhos manchados de sangue seco e as mãos brancas de giz e desejo me aproximar. Você grita meu nome. Há felicidade em você. Seu mundo não é nada além de pendurar bonecas de cabeça para baixo e comer pães de queijo com as mãos sujas de terra (tranqüilize a sua mãe; sua saúde será péssima quando você ficar mocinha, mas nenhum problema estará relacionado à quantidade irrisória de terra que você eventualmente engolirá na sua pressa de voltar a brincar).
Não quero atrapalhar a sua diversão; longe de mim. Só quero conversar e contar um pouco sobre a minha vida sem você. Só quero esclarecer o que não ficou claro o suficiente ainda.
Se você ainda me lê, garotinha, tente entender. Afastei-a de mim porque me parecia a coisa certa a fazer, mas hoje não estou mais certa de nada. Vê, eu não sou mais tão jovem para saber de tudo. Essa é uma virtude de gente nova e inteligente demais. A idade traz consigo uma estupidez tão gritante que me torna leiga perto de você, dona de planos tão concretos que não parecem ser feitos de ar.
Eu já fui assim. Eu já calcei seus sapatos. Segure-se na solidez sob os seus pés, menina, por favor. Você não fará filmes.  Você não vai crescer o suficiente para ser modelo tampouco, então relaxe. Relaxe. Volte para as suas guloseimas.  Coma mesmo. É o melhor conselho que eu posso te dar.
Eu sei que você não vai aceitar o que eu estou dizendo. Ao contrário de mim, você tem fé e razão. Ainda assim, insisto: não espere ligações. Você não será chamada para nada. A vida é dura e insistir nisso só vai te trazer uma crise de gastrite daquelas.
Aliás, cuide do seu estômago. Eu ignorei o meu por muito tempo e até hoje ele não me perdoou. Como eu sei que você tem pavor de agulhas, devo dizer: Buscopan na veia, o remédio para o problema de estômago que você terá se não se cuidar, é um desespero. Você não precisa disso.
Não se deixe levar pelas suas paixões. Elas não vão trazer qualquer coisa além de travesseiros encharcados e dores de cabeça sem fim. Por falar em cabeça, a sua vai mudar muito ainda, o que é de certa forma lamentável. Você nunca será mais corajosa do que é agora. Você nunca estará tão longe das suas metas quanto agora e nem elas lhe parecerão tão próximas. Você é dura feito aço, mas feita de papel. Tenho pensado que quero ser como você. Semana passada decidi que tentaria. Ainda estou firme nessa resolução.
Não confie em tudo o que você ouve. As pessoas vão pisar em você de vez em quando e você vai ter que aceitar que a culpa é sua. As expectativas foram suas. Bom salientar: não crie expectativas. Você vai estudar como louca por anos, até perceber que não imagina o que diabos significa aquela equação de três páginas que você copiou no caderno (aquele cheio de letras de músicas nunca gravadas e declarações de amor que nunca foram entregues). Você vai se acomodar, mas não se preocupe – por algum motivo que você não conseguirá explicar, algumas coisas vão dar certo, ainda assim. Você vai afrouxar as calças, pintar os olhos, encher a cara de maquiagem para ver se você se descobre, se você se reconhece. Você vai aceitar. Para se aceitar, entretanto, você vai demorar bem mais do que dez anos. Mas um dia, eu espero, você vai chegar lá.
Desculpe se eu pareço rude. Quem some por tanto tempo não pode simplesmente chegar e falar. Não é justo e nós duas não somos mais as mesmas, mas eu não posso evitar. Eu sinto a sua falta, pequenina. Queria poder sentar do seu lado e te ver quando eu me olhasse no espelho.

Mas não posso.

Tranquei você no armário junto com as nossas bonecas e tenho medo de abrir a porta. Deus sabe como é que eu reagiria se ficasse cara a cara com aquela criança banguela que morreu.

Apesar de tudo, eu queria você aqui. Comigo e agora.

Os anos, porém, me ensinaram que corações não se consertam, palavras não retornam e mortos não voltam. Uma pena.

Feliz aniversário e obrigada por tudo.

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6 thoughts on “Dez anos antes de hoje”

  1. Devo parecer uma tosca de comentários toscos e vazios aqui pra vc. Sempre sei o que falar e isso é o mais assustador, porque raramente isso acontece, já que não me impressiono mais tão fácil… Mas sinceramente, vc tira completamente minhas palavras.
    Seus textos são tão… TÃO. Tá vendo? Não sei explicar o que sinto quando os leio, nem defini-los. Diferente de vc, não sei tirar sentimento do coração e transofrmar em algo tão incrível.
    MUITO obrigada.

    1. Nenhum dos seus comentários é vazio ou tosco. Todos eles são incrivelmente adoráveis e muito gentis. Agradeço muito pela sua presença constante, flor. Agradeço pelo carinho e pelo tempo que você tira para escrever algo para mim aqui, de verdade. Você não imagina o quanto é importante para mim quando você aparece por aqui.
      Obrigada, obrigada mesmo. Eu é que tenho que agradecer, sempre.

  2. Não sei se é porque tem um apelo pessoal imenso, mas esse texto mexeu muito comigo.
    A gente não volta a ser criança, isso é certo. A gente é moldado, moralizado, emburrecido.
    Mas alguns voltam a ser livres sim. Precisa coragem – e muita – mas voltam. Espero que você volte a ser, se já não é, Sun. Espero mesmo.
    Você é linda e está de parabéns.

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