Um copo de sinceridade

Olá. Muito prazer, tudo bem? Essa cadeira aqui está vaga? Não, eu não queria pegar a cadeira, eu só queria sentar junto com você, você se importa? Estou um pouco cansada de fingir que estou esperando alguém que não chega. Cansei de olhar no relógio para fingir que marquei hora com uma pessoa qualquer e que estou aborrecida pelo atraso. Não tem ninguém vindo me encontrar hoje e você está aqui e eu acho que você é uma pessoa tão solitária quanto eu. Obrigada pela gentileza, quero sim. E um gole da sua cerveja iria muito bem, agradeço. Você tem lindos olhos. Sério. Isso não é uma cantada, só uma conclusão. Eu consigo me ver neles e isso é meio doído, porque eu não gosto do que eu vejo. Mas eu gosto muito dos seus olhos, ainda assim. Meu nome? Ah, meu nome é comum, eu não sou muito chegada a ele. Prefiro que você me chame de Alice. Minha mãe me disse na semana passada que foi o primeiro nome que ela pensou em me dar, mas que minha vó disse que ela não deveria fazê-lo. Não sei o motivo de ela ter feito isso, porque, olha, é o meu nome favorito. E eu nunca vou tê-lo. Não é triste como você ama um monte de coisas que nunca vai ver de perto ou ter? Eu nunca serei Alice. Para ser franca, nem eu entendo muito porque eu tenho essa fixação de ser outra mulher com um nome tão bonito, se eu sei que não estaria à altura desse nome. Não é triste também quando a gente não pode ter uma coisa porque não a merece? Eu já tive coisas que eu não merecia e quando elas notaram isso, elas foram embora. Você vai embora daqui a pouco também, não é? Eu não tenho você, por favor, não me entenda mal, mas você também vai me deixar sozinha aqui, bebendo e fumando meu terceiro maço do dia e sabendo que vou voltar para casa, vou chorar e querer morrer. Eu não gosto disso. Eu saio todos os dias. É sério, eu não fico em casa, eu sei o que aquela cama me lembra, eu sei o que eu vejo naquelas paredes. Eu não gosto de sentar no meu sofá e rever mentalmente um milhão e meio de cenas que me fazem encher a cara e dormir enquanto tomo um banho bem gelado e canto Ne me quitte pas seu filho da puta com voz de choro até bater a testa no ladrilho e acordar toda vomitada. Desculpa, você está comendo, não posso falar que acordo vomitada. O que importa é você saber disso. Eu não estou aqui pedindo por migalhas da sua atenção, eu só estou querendo matar o tempo com você. Se importa? Quer um cigarro? Ah, obrigada. Você também fica sozinho com muita freqüência? Qual é o seu nome? Ah, eu gostei do seu nome. Você tem um isqueiro por aí, amigo? Eu deixei o meu em algum lugar que eu não sei. Mentira, eu joguei fora. Eu estava cantando por aí, lembrei que meu isqueiro também me lembrava de um monte de coisas que eu quero esquecer e taquei aquela porra de cima da ponte. Eu saí correndo para procurar por ele depois, mas eu não achei. É muito idiota chorar por um isqueiro? Eu já choro por tanta besteira, acho que não é tão pior assim. Eu queria escrever um livro. Você já pensou em escrever um livro? Não só sobre a sua vida, mas sobre o mundo, sobre a sua forma de ver o mundo. Eu acho tão bonito. Você podia mudar a vida de alguém, você parece ter esse talento, cara. Não tô dizendo isso para agradar não, que isso, é sério. Você tem cara de quem sabe o que quer. E não, isso também não é uma cantada. Eu não quero que você me diga que me quer, porque eu sinceramente não quero que você me queira. Eu não quero que ninguém me queira, porque sempre que alguém me quer não é por muito tempo e eu só gosto de coisas que duram. Eu não gosto de nada que morra nos meus braços sem direito a massagem cardíaca. Eu só queria ser eterna, queria morrer amanhã bem cedo. Todo mundo ia lembrar de mim com carinho e chorar dizendo que devia ter me amado, me dado atenção, feito brigadeiro para eu achar que a vida é uma panela de chocolate fumegante, me comprado presentes para eu me sentir querida. Quando a gente morre a gente vira ícone. Não é engraçado como morrer apaga todos os seus pecados? Você se torna mais gente quando não está mais aqui. Sei lá, até que faz sentido, mas eu acho meio amarga essa coisa de só importar para alguém quando você tá com terra nos olhos e vermes na cara. Quer uma outra cerveja? Eu pago para você, já que você está sendo tão legal comigo. Eu sei que você está bêbado, é claro que eu sei, por que você acha que eu vim até aqui? Conversas com bêbados são sempre ótimas. Vocês sempre dizem que me entendem, que já estiveram no meu lugar, que vai passar. E nessas horas vocês me fazem pensar que talvez eu não vá, sei lá… Voltar para casa, chorar e querer morrer. Mas eu vou. Garçom!

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8 thoughts on “Um copo de sinceridade”

  1. Sunnie! Putzgrila! De novo a construção psicológica do personagem foi fantástica. Eu consegui ter tudo com ela: afinidade, aflição, empatia, antipatia, tudo ao mesmo tempo agora…

    Blé, vc fica cada vez melhor. Sério, provavelmente é o melhor texto que eu já li aqui em toda minha vida inteira desde que eu nasci…

    rsrsrsrs

    Parabéns, ficou espetacular…

    1. Gah!! Você não imagina o quanto eu fico lisonjeada por ouvir isso de você, de verdade. Você é uma das pessoas mais talentosas que eu já tive o prazer de conhecer. Fico muito, muito contente mesmo por sua presença e sempre muito grata pelo carinho imenso. Muito obrigada, mesmo mesmo.

  2. Você me faz querer chorar e sorrir e ser feliz e morrer no instante seguinte. Tudo no mesmo tempo. Isso não pode ser normal ._. HAUHAUHAUHAUH
    Vem pra minha vida, sunnie. Eu preciso, é sério. Quero poder um dia, quem sabe, ter uma conversa de bêbado assim, com você.

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