Dedicado ao que não somos

Nós dois descendo a avenida repleta de pessoas, desviando dos corpos, saltando sobre copos, chutando garrafas. Nós dois rindo da vida, encantados por aquela noite pateticamente linda, imaginando se havia como ficar melhor.

Nós dois parados sob o letreiro neon e a decoração que antecipava o Natal e observando a movimentação. Os carros que iam e vinham, os casais que se tocavam como se não houvesse platéia, o homem que alisava uma guitarra no meio da agitação, com os olhos fechados e os lábios entreabertos. Ele cantarolava. Ele sentia.

Eu olhei para você. Você olhou para mim. Eu engoli o amor que eu queria gritar. Hoje penso que devia tê-lo berrado. Gostaria que você tivesse me ouvido. Mas não ouviu. Eu olhei para você e meus olhos nublaram. E eu quis chorar e eu acho que você também quis, mas eu nunca vou saber realmente.

Olha lá, você me falou com a voz trêmula. Luzes azuis!

Eu acompanhei a sua movimentação e sorri. Ao lado do homem com a guitarra, um jovem atirava brinquedos ao céu como se mirasse as nuvens. O azul se misturava com o vermelho piscante das guirlandas e os amarelos e verdes dos enfeites.

Eu estiquei a mão devagar e busquei a sua. Você entrelaçou nossos dedos e eu sei que eu chorei. Talvez você não tenha percebido, uma vez que eu sempre fui boa em disfarçar o óbvio, mas é importante que você saiba. Eu chorei. Por mim, por você, por aquela noite pateticamente linda, pelo azul que dançava de um lado para o outro, pelo moço que não sabia o que tocar. Eu chorei porque sabia que aquilo iria ter fim.

Já estamos em março. Não quero fazer cálculos, mas já faz um tempo. Deslizei sozinha pela avenida há uns poucos dias e meus olhos correram pelas vitrines, pelas placas, pelos outdoors. Eu senti falta das lamparinas. Eu senti falta das renas. Não havia mais vermelho, liquidações maravilhosas, senhoras correndo com caixas de boneca, casais se beijando.

Havia fumaça, havia frio, havia a falta. Meus olhos nublaram diante do céu fechado. O som da canção triste me bateu direto na cara. Quase imóvel, envelhecido, estava o músico de outrora. Sua guitarra gasta chorava os prantos na calçada.

As luzes azuis subiram aos céus diante dos meus olhos e estranhamente eu me senti aquecer. Olha lá, eu pensei quietinha. Lá estão elas.

Então eu estiquei a mão devagar e busquei a sua.

E você não estava lá.

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5 thoughts on “Dedicado ao que não somos”

  1. Estou adorando muito essa frequencia de posts aqui, de verdade.
    Eu acho muito, muito… triste -talvez seja a palavra- essa certeza, a única certeza que temos das coisas: a de que elas terão um fim, um dia. E chorei lindamente com esse “Então eu estiquei a mão devagar e busquei a sua.
    E você não estava lá.” Você, sempre maravilhosa.

  2. Putzgrila! Adorei… de novo, seu talento único pra descrever com tão pouco. Suas qualdades são espetaculares, sunnie.
    E essas linhas de quase realismo fantástico.. dá uma ótima ideia pra um romance…

    Caralho, puta que pariiu

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