Auto-retrato 2

Nunca duvidei do poder das palavras. Quando meus olhos não dizem o bastante, eu abro a boca. Não sou grande o suficiente para chegar a ser miúda. Tenho medo da vida que passa. Minha ansiedade me bate na cara. Não gosto de olhar meus olhos no espelho. Queria ser obscenamente linda. Lutei a minha vida toda para sê-lo, mas não sou. Queria que glúteos bem definidos tirassem o foco do meu cérebro atrofiado. Queria que pernas torneadas tirassem o foco da minha cara vazia. Nunca duvidei do poder das palavras, mas duvidei ainda menos do poder da beleza. Se eu a tivesse, ninguém me deixaria. Se eu pudesse, eu seria tudo. Eu saberia tudo. Eu seria inquestionável e impossível de ser largada. Não sei construir situações. Não sei alimentar romances. Não sei se sou romântica. No fundo, sempre sozinha. Não sei amar como todo mundo. Não amo. Amo demais. Mudo a minha versão. Conto de novo. Distorço para me entender. Costuro fatos. Chuto castelos de areia. Não sei ser delicada. Sou um monstro de sutileza. Gosto de não ser, mas queria ser. Não bato na cara; não sei ser assim. Não sei deixar; só sirvo para ser deixada. Tudo o que eu faço é me cuspir inteira nas minhas linhas. E quanto mais dói, mais eu escrevo.

Anúncios

9 thoughts on “Auto-retrato 2”

  1. Engraçado isso. Eu tô lendo os posts depois de mais de um mês sem internet e tô adorando as nuances das coisas que vc vai falando. Tipo esse parágrafo foi totalmente clarisse. vi os dedos dela digitando isso…

    Adorei…

    Me ensina a escrever assim?

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s