Eu devo dizer que dói. Não é opcional; só dói. Ao contrário do que possa parecer, eu estou ciente de todas as dádivas que me foram concedidas e da sorte que tenho por ter crescido com tudo o que uma criança precisa para crescer. Tenho sorte de ter podido estudar, de ter podido comer e experimentar uma série de coisas, de ter aprendido a ler. Tive minhas bonecas; matei-as um milhão de vezes, como toda criança normal, e desenhei contos de fada nos meus cadernos de caligrafia. Fui uma criança boba e rasguei os joelhos – tenho mais cicatrizes do que dedos nas mãos. Meus pais me amam e compram as minhas falhas. E aceitam alguns dos meus desejos. E não gostam realmente de minhas ideologias, mas têm reclamado menos delas (ou eu é que parei de falar sobre; não tenho certeza). Fui moralizada e emburrecida pelos homens e pela vida, mas estou tentando me libertar disso. Não tenho mais dogmas. As coisas não me parecem mais tão sérias. Cresci comendo salgadinho e correndo com meus cachorros no quintal. Tive todo o amor possível.

Mas por algum motivo que não é claro, ainda dói.

Não quando estou com as pessoas que fazem valer, não quando eu estou tão tonta que não consigo não achar graça de mim mesma, não quando eu estou dormindo, entorpecida e satisfeita. Dói quando eu me vejo de verdade, dói quando eu me destruo – e eu preciso me destruir -, dói quando eu entendo e não aceito e não entendo e aceito e dói quando eu tomo decisões, porque eu não sei tomar decisões. Dói quando eu incomodo, quando eu machuco alguém, quando eu me machuco, quando eu sento e olho para as minhas mãos e eu de repente acho que elas não estão bem lavadas. Que absurdo isso de achar que posso falar de qualquer um quando as minhas mãos estão cheias de lama. Aí dói mais um pouco porque eu não quero enxergar meus defeitos e eu tenho que enxergá-los. E eu tenho muitos e eu não gosto deles. Eu não tenho tato. Eu provavelmente vou te magoar uma hora dessas e eu vou chegar em casa e pensar nisso e rezar para você esquecer, me perdoar, não me enxergar como persona non grata. Sou incrivelmente estúpida. Sou incrivelmente exagerada. Crio fábulas e eu não estou ciente delas. Tenho medo de ser inadequada para o convívio de quem me interessa. Não ligo para quem não me interessa, mas eu deveria. Às vezes me falta a consciência de que eu não estou sozinha no mundo. Às vezes eu acho que sou um produto do meu meio, mas penso que meu meio não pode ser tão ruim assim. Eu gosto de dar atenção. Eu gosto de apelidos. Eu gosto de fazer carinho. Mas eu tenho medo de aproximação. Eu estou perto, mas eu estou longe. Não sei oferecer sem tirar depois. Eu tive uma infância gostosa, cheia de Barbies e chocolates e despreocupações e dias longos e sem significado que faziam todo o sentido. Hoje eu não vejo sentido em mais nada, mas sigo porque não acho que possa desistir agora.  Tenho medo do quanto dói. De verdade.

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4 thoughts on “”

  1. Eu juro que faço um esforço para não parecer uma maníaca que vem aqui o tempo todo e comenta o tempo todo, mas você não colabora, Sun. Olha aí o que você me escreve ;_; Daí cá estou eu.

    “Aí dói mais um pouco porque eu não quero enxergar meus defeitos e eu tenho que enxergá-los. E eu tenho muitos e eu não gosto deles. Eu não tenho tato.”
    Acho tão bom se ver num texto. E alguns dos seus são tão “eu” que chega a assustar, creio já ter comentado isso mas não custa repetir. Você escreve coisas tão íntimas suas que acabam sendo também nossas e eu adoro isso ;-;

    1. Eu AMO quando você aparece. Muito mesmo. Fico toda feliz quando abro os comentários e descubro que você passou por aqui.
      Eu agradeço muito pelo carinho e presença, sempre. É muito importante para mim. E eu fico feliz que você se identifique – muito embora eu ache que determinados sentimentos não deveriam ser sentidos por ninguém.
      Obrigada mesmo, linda.

  2. Eu juro que faço um esforço para não parecer uma maníaca que vem aqui o tempo todo e comenta o tempo todo, mas você não colabora, Sun. [2]
    E isso foi tão tão íntimo que passei as últimas 3 horas tentando dormir e não conseguindo de tanto matutar sobre tudo escrito aí em cima… agora desisto de dormir e volto aqui pra mais uma vez ler esses parágrafos…
    Cara, vc não tem noção de si mesma, da sua grandeza, te juro…

    1. Eu gostaria de ser metade disso tudo, sua linda, mas realmente não sou. Agradeço pela sua gentileza e carinho sempre, entretanto. MUITO obrigada mesmo pela sua presença e pelos comentários sempre bem-vindos. Venha sempre, por favor ‘-‘

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