Comédia contemporânea

Esse amor moderno é complicado, cara. A gente se apaixona por unhas pintadas e tatuagens, por comida macrobiótica e cabelos tingidos, por livrinhos de literatura russa. E a gente fode um ao outro pensando no quão bonitos nós ficamos nessa ou naquela posição. Essa nossa modernice me excita. Eu sou sua musa e você é meu objeto. E a gente discute Marx depois do coito e canta Beatles cozinhando brócolis. E a gente não se ama, mas finge que sim para poder escrever tragédia e cantar blues para os amigos. É tão gostoso sofrer em voz alta. É tão libertador se fazer de entendido das dores do mundo, de filósofo de barzinho, de anarquista revoltado. Esse amor moderno é contagiante, meu amigo, é uma coisa peculiar. Sui generis, eu diria, com um cigarro na boca e tomando meu café batido com sorvete. Essas palavras chupadas da faculdade de humanas, ah, eu adoro. Essa delícia de relacionamento contemporâneo, esses casos de uma noite só, esses amigos coloridos, essas relações complicadas, essa poligamia que quase se envergonha de si mesma; eu gosto, quer saber? Eu gosto de poder debater no café da manhã. É tanta ideologia que o cereal desce rasgando a garganta. É tanto ídolo, tanta militância que a gente fica tonto de tanta informação. Mas a gente adora. E reafirma nossa paixão por qualquer cineasta blasé enquanto mastiga soja. Adoramos a Nouvelle Vague; só nos agradam as rupturas e os diferentes. E nessa diferença toda a gente se perde na multidão.

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