Compilação de influências

Eu já fui criança. Ser criança, em si, já é uma experiência e tanto. Essa minha condição de infante me rendeu milhões de atribuições e sonhos. Quebrei dúzias de paradigmas quando nem sabia o que essa palavra significava.

Fui vilã das brincadeiras, fui princesa presa no castelo, fui a chorona dos joelhos ralados e do dedo sem tampa. Fui dona de casa e cozinheira de plantas roubadas do jardim da minha avó. Fui veterinária – pobres dos meus cachorros -, fui mãe de bonecas (embora hoje a idéia de ser mãe me cause um desconforto impressionante), fui diva de cinema. Pintei estrelas na minha porta para fingir que era um camarim, até. Na minha cabeça, eu podia ser grande. Eu podia ser meio Audrey, podia ser meio Bardot, um híbrido entre a classe e a ousadia. Já ganhei prêmios imaginários por atuações icônicas. Já dei autógrafos. Eles ficaram lindos ao lado das contas de mais e menos que eu fazia com sete ou oito anos.

Eu já fui adolescente. Época de infanticídio, essa. Matei desejos antigos e criei novos, bem menos doces. Deixei de acreditar em quase tudo e me tornei crente de mil outras besteiras. Aí eu fui tanta gente que não consigo contar nos dedos. Fui astronauta, Major Tom, Ziggy, uma pequena China Girl, cantei Angie, quando essas nuvens negras vão desaparecer? com as mãos dentro do casaco e pensando que não havia amor nos meus bolsos nem moedas no meu coração ou alguma coisa bem parecida com isso. Fui Marilyn e fui Manson e acho que sei qual dos lados eu prefiro. Cantei que sonhei que me amavam na noite passada e acordei morrendo de dor de estômago, porque é o que acontece quando eu penso de mais. Pedi que cantassem para que eu dormisse e me perguntei como seria se eu não acordasse. Pintei o meu quarto e pensei em partir. Parti sem dizer adeus, porque eu sabia que voltaria. Não pude ignorar a fumaça. Já fui pré-modernista, parnasiana, ultra-romântica, um conjunto de nadas significativos. Achei que deveria. Tentei, quebrei a cara e, bem, como todo mundo mais, já ri para fingir que não me importava. Já fui adolescente. E a adolescência me deu cicatrizes que a maquiagem não esconde.

Hoje, realmente, eu não sou ninguém. Mas à  parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo e uma recém-adquirida esperança que não me parece com nada que eu já fui. Ainda bem.

Ps.: Importante creditar. Algumas frases foram inspiradas em obras de Fernando Pessoa, David Bowie, The Rasmus,  Marilyn Manson e Rolling Stones. Nada disso me pertence, só a admiração.

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6 thoughts on “Compilação de influências”

  1. AAAAAAAH *0* E eu aqui surtando com esse texto, como lidar? Ele despertou algo em mim que nem sei explicar.

    “Hoje, realmente, eu não sou ninguém. Mas à parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo e uma recém-adquirida esperança que não me parece com nada que eu já fui. Ainda bem.”

    Você escreve maravilhosamente bem, Sunnie ;_; Muito, muito.

    1. Sua coisa mais querida! Muito obrigada, minha flor, de verdade.
      Escrevi esse texto correndo. Assim que eu chegar em casa, vou editá-lo e colocar links para as referências que eu usei. ii Botei algumas influências que tive durante toda a vida, mas agora notei que faltaram os créditos. Falhei loucamente.
      Esse pedaço do “à parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo” é do Pessoa. E outros trechos foram adaptados de músicas e piriri ii Colocarei depois.
      Então, eu sei que tô escrevendo uma Bíblia, mas né. hehehe ii Muito obrigada mesmo. Nem escrevo bem, só escolhi autores lindos para parafrasear. Gracias, doçura! Sempre um prazer e uma honra te ter por aqui.

  2. Eu aqui toda chorosa de ler suas coisas lindas e toda feliz pelos seus sonhos e novas esperanças.
    Sabe que eu torço muito por você, né? Para que tudo dê certo para você, para que você consiga acreditar de novo (seja no que for, mas principalmente nos sonhos lindos que você colocou aqui) em alguma medida. Porque acho – e falo isso também do lugar de autora – que o que a gente escreve às vezes diz muito mais do que a gente se atreveria a dizer para alguém. A gente acaba te conhecendo aqui, Sun, e eu acho você uma pessoa linda, mas queria muito mais sorrisos em você. Torço muito por isso, mesmo.
    Nem preciso falar da escrita, você é sempre maravilhosa. ❤
    (Nota: não posso ler seu blog com os hormônios descontrolados. Fico toda cheia de lágrimas.)

    1. Você não imagina o tamanho do sorriso que eu abri quando li o “sabe que eu torço muito por você, né?”. Mesmo, sua linda. Muito, muito obrigada por isso. É a melhor coisa que eu poderia ouvir e veio de uma das pessoas mais doces que eu já conheci.
      Muito obrigada pelo carinho e pela consideração. Suas palavras valem tanto, gata, mas tanto. Nessas horas, tudo vale a pena. Eu agradeço pela companhia e presença. Você divide a minha vida comigo, mesmo que a gente não se conheça pessoalmente ou qualquer coisa assim. Muito obrigada por tudo.

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