Para a Lírio.

Foi um estalo seco e alto. Ela retirou a mão depressa, quase arrependida do que havia feito. Ele tinha os olhos fechados e a boca entreaberta. A marca vermelha pulsava em seu rosto, firme, revivendo o golpe.

– Outra vez – ele disse e sua voz saiu trêmula, mas estranhamente satisfeita. – Mais forte, agora.

– Por quê? – Ela perguntou novamente, ainda inconformada com a situação. – O que há de tão bom nisso?

– Dor é libertação – ele abriu os olhos e mirou o teto, como se visse algo lá. Ela se sentiu invejosa por um momento. Ele jamais havia olhado daquela forma para ela. – Você me cura dos meus pecados quando me bate assim.

– Eu não estou aqui para punir ninguém – ela protestou, rude, mas ele não se afetou. Manteve-se fixo no mesmo ponto de outrora. – Não me sinto no direito de fazê-lo, tampouco.

– Não é punição, imagine – ele sorriu. A vermelhidão começava a se espalhar, descendo para o  pescoço branquíssimo. – Muito pelo contrário. Nessas horas, você me dá tudo o que eu quero.

– Suas explicações me assustam, de verdade – ela bufou e olhou para a mão que o havia violentado. As pontas dos dedos latejavam. – E não convencem. Que porra de doença é essa? Nunca tive um namorado que gostasse de levar na cara.

– Não se trata de levar na cara – ele explicou, paciente, como quem contava algo muito grande a uma criança. – Um tapa aqui, dado por você, não é o mesmo que um tapa dado por qualquer um num momento de raiva. A significação é diferente.

– O que isso deveria significar?

– Eu confio em você o suficiente para te deixar me atingir fundo assim – ele finalmente olhou para ela. Sorriu, quase envergonhado pela confissão. – Eu confio em você o bastante para te deixar me ferir por fora e por dentro. Forte, bem forte, para que eu fique viciado nessa sensação de estar vivo e não consiga me imaginar sem isso. Entende? É mais do que isso. Eu estou te dando o controle. É o máximo que uma pessoa pode te oferecer.

Ela pareceu realmente surpresa. Ergueu as sobrancelhas e buscou por traços de mentira nele, mas não encontrou. Tudo o que viu foi aquela sinceridade aguda de sempre, aquela honestidade tão brutal que chegava a ofender. Ela pôs a mão sobre os lábios, tentando entender como diabos havia parado ali e o motivo pelo qual tudo lhe parecia agora tão aprazível. Aquela declaração de amor esquisita era o maior que já havia recebido de alguém e naquele momento era tudo o que ela gostaria de ouvir.

Descobriu a boca e acertou-o tão forte que ele chegou a cair.

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6 thoughts on “”

  1. Eu amei como você abordou o tema de uma forma totalmente diferente ;0; Inesperado, como o poeta matemático disse. Nunca cansa de ser genial, você! E eu aqui, babando como sempre.

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