Eu preciso – não, eu não quero usar essa palavra, espera. Eu quero perder o controle.

Já faz um tempinho desde a última vez que eu me permiti extravasar de verdade. Sinto falta dessa sensação. Sinto falta de ser conduzida por algo além do meu cérebro. Nem lembro quando andei sem o pé no freio. Tenho sido tão rígida com meus próprios desejos que chego a ficar assustada. Quando foi que eu deixei isso acontecer? E por quê, exatamente, eu cedi?

Quero de novo os olhos fechados e as mãos. As mãos, todas as mãos imaginárias me levando para qualquer lugar distante. Quero de novo aquele prazer sem nome que eu só sinto quando não enxergo bem. Quero de novo conseguir me expressar sem metáforas, sem medo de parecer inadequada, sem eufemismos para suavizar ânsias demasiadamente humanas. Demasiadamente próximas do que eu não gosto de ser (mas sou e muito bem).

Quero poder jogar a culpa do meu deleite imenso em qualquer coisa que não me pertence. Quero atirar minha vergonha no colo de outro alguém e dizer que eu estava ali na hora errada e só isso. Tenho nutrido uma necessidade quase estrangeira de luzes ofuscantes e gostos e vozes e risos e mentiras e verdades e todas essas coisas. Tenho sentido falta de alguma coisa que eu nem sei. Algo que suavize essa apatia e essa vida que se perde nos periódicos de ciências sociais e nos clássicos que me ocupam a cabeça e espancam a cara. Algo que suavize esse vazio que eu tento ocupar com livro, música alta e quantidades inacreditáveis de matéria desnecessária.

Eu li – ou me disseram, sei lá – que você se animaliza e se estranha depois de repetir infinitamente a mesma atividade – ela se torna tão enfadonha que deteriora a sua qualidade de vida, destrói a sua familiaridade com o resto da raça humana, te transforma num bichinho acuado que só pensa em sobreviver. Sem prazer, nem nada. E velho, não é que isso faz sentido? De tanto repetir e me repetir, eu não sei o que eu quero, eu não sei aonde vou e pior, não sei quem é a aquela pseudo-japonesa que me encara quando estou diante de uma superfície espelhada. Como é que eu jogo de volta na gaiola esse animal em que eu me tornei?

(E pior: por que ele se parece mais comigo do que eu?)

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2 thoughts on “”

  1. Eu me identifiquei muito com esse texto. Acho que principalmente porque você colocou em palavras (perfeitas, como sempre) tal assunto, algo que eu nunca consegui. Ainda me encontro em certa desvantagem porque nunca perdi o controle – nunca tive essa oportunidade. Ou tive sem perceber e neguei – faço com frequencia. Amei mesmo, mesmo.

    “Como é que eu jogo de volta na gaiola esse animal em que eu me tornei?”

    1. Muito obrigada mesmo pela presença, carinho e pelo comentário, querida. Muito obrigada pela gentileza de sempre ._. Fico muito lisonjeada por isso.

      (Perder o controle é a melhor coisa do mundo)

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