Sobre adultos e parques

Aviso: o texto depois do pulo é imenso, enfadonho, foi escrito durante uma madrugada de insônia e foi porcamente corrigido. Necessário avisar.

Nós pulamos.

Eu estava com medo – não, a verdade: eu estava cagando nas calças. Minhas pernas tremiam tanto que eu pensei que não conseguiria andar. A idéia de invadir algum lugar nunca havia me passado pela cabeça até aquela manhã, então tudo ainda era uma imensa novidade.

– Relaxa – a voz  inalterada de Mika se fez ouvir. Ele ainda se preparava para pular o muro, visivelmente despreocupado. Eu invejava aquela calma, aquela ausência de qualquer coisa moralmente aceitável. Eu queria ser como ele; só problema e nada de receio. – Ninguém toma conta disso aqui, cara. Cê acha que vai ter alguém importante rondando? Balela. No máximo um desocupado querendo ver esse monte de ferro velho de perto.

– Se é só isso, velho, por que é que a gente veio? – Eu reclamei baixinho, quase revoltada, recebendo aquele olhar que sempre me fazia sentir como uma incapaz. – Eu quero ir embora.

– Quer nada – ele riu, pulando de onde estava e desequilibrando ao cair no chão. Segurou-se no muro antigo, resmungando. – Você queria ver. Do contrário, não teria topado. Você sabe que eu te convenço a fazer coisas que você não faria sozinha, mas nunca te obrigo a ir além do que você pode. É sempre escolha sua.

– Cala a boca, vai – bufei, girando para observar o lugar em que estávamos. Ouvi o som abafado de uma gargalhada e prometi pagar promessa caso eu conseguisse resistir à ânsia de matá-lo. – Você sabe sair daqui, certo?

– Claro, sem mistério. Quando for a hora da gente ir embora, a gente passa pelo buraco do outro lado da avenida – ele passou por mim com as mãos nos bolsos do casaco preto. Mantive os olhos nele, curiosa a respeito do que ele faria. – À sua direita, minha querida, temos uma roda gigante. Há quanto tempo você não vê uma roda gigante desse tamanho, heim? Eu gostava tanto disso quando eu era pequeno. Você também, tenho certeza. Não é triste como as crianças hoje crescem com pornografia de fácil acesso e bonecas peitudas? Nenhuma roda gigante devia ter esse destino. Nenhuma delas devia virar um amontoado de tétano e vidro quebrado.

Não respondi. Caminhei até ficar próxima dele, querendo que ele soubesse que eu estava prestando atenção. Ele enroscou nossos braços e me levou consigo, disposto a me fazer andar.

– Eu te trouxe aqui porque encontrei umas fotos no seu armário – ele confessou enquanto atravessávamos a grama, tão alta que roçava em nossos joelhos. – Eu te vi pequena, gordinha e com vestidinho florido correndo por um parque parecido, sabia? Você diz que sente falta da sua cidade. Eu queria te fazer sentir perto de casa de novo.

– Ah – foi o que eu disse. Ele não ligou. Prosseguiu.

– Eu vinha aqui quando eu tinha uns… treze anos? É, uns treze – ele proferiu cada palavra com uma amargura alienígena. Apertei-o de leve. – Eu costumava vir sempre. Eles tinham uma pista. Com carrinhos de verdade. E eles me davam um capacete que fedia tanto que me dava ânsia de vômito e me apertavam tão forte no cinto de segurança que eu saía de lá com tontura – e quantos anos você tinha?

– Oito.

– Hoje você tem dezoito.

– E você tem vinte e três.

– Essa aqui era a pista – ele falou, apontando para uma área vazia com a cabeça, os olhos passeando tão devagar por ali que eu tive a certeza de que ele estava revivendo alguma coisa. – Eu lembro que minha mãe ficava aqui me olhando. Aqui, onde a gente está agora. Ela ficava aqui, parada, gritando para eu não acelerar tanto, sem conseguir esconder o medo de me perder para um brinquedinho de criança. Eu sinto falta da minha mãe. Eu sinto falta de ser o menininho dela. Hoje ela me olha com olhos diferentes, sabe? Olhos que não entendem como ela errou. Eu lembro dela aqui, olhando para mim e pulando a grade quando o meu carrinho bateu e eu voei. Eu tenho uma cicatriz no braço. Eu gosto dela. Foi o meu momento de glória. Você entende?

– Explica? – A palavra dançou nos meus lábios por muito tempo antes de finalmente sair. Mika estava tão absorto nas próprias lembranças que não notou o meu desconforto. Não era sobre mim; era sobre ele. – Por favor.

– Eu fui o moleque que quebrou o carrinho, cara – ele gaguejou, sem conseguir esconder a satisfação. – Eu meti o pé no acelerador e fui que nem uma mula pela pista, cortando tudo quanto era carrinho. Esqueci que existia freio. Ou quebrei, não lembro — o que importa, mesmo, é que eu bati e todo mundo falou de mim naquele dia. Eu fui o assunto. Eu, todos os hematomas que eu ganhei, minha cara de tacho e o rosto cheio de lágrimas da minha mãe. Eu acho que até hoje falam do pirralho suicida do parquinho. Eu entrei na vida de gente que eu nem conheço e fui importante, mesmo que por pouco tempo. Eu nunca cheguei nem perto disso depois. Entendeu por que aquilo fez toda a diferença?

Ele me puxou de novo e eu me deixei conduzir. Não estava acostumada a ouvir aquilo tudo dele, mas não ousaria falar contra seu rompante de sinceridade. Era apaixonante.

– Ali tinha um riacho – ele parou por um momento, os olhos grandes. Corrigiu-se depressa. – Não! Não era um riacho. Era uma… Umas… Como chama? Corredeiras? Era tipo isso. A gente montava num barquinho redondo e saía de lá com água escorrendo de todas as cavidades possíveis, velho. Era incrível.

– A água meio que liberta, né? Não, não é liberta. Mas eu não quero falar limpa. Limpa é óbvio – ele me deu atenção, então, parecendo escapar de seu transe. – Ela leva algo que não é visível.

– Olha o barquinho ali! – Ele exclamou de repente, parecendo encantado. Soltou meu braço e disparou, entrando pela cerca quebrada. Vi seu corpo miúdo se atirar contra um vão e controlei o meu grito. – Vem, linda! Olha!

Aproximei-me devagarzinho, ainda desconfortável com a situação. Temia ser repreendida. E se alguém nos tivesse visto pulando o muro? E se a polícia estivesse chegando? E se-

– Você ainda está preocupada? – Ele perguntou alto, parecendo ler a minha mente. Atravessei a cerca cautelosamente e arrisquei um olhar. Mika tinha as botas imundas e as calças salpicadas de algo que eu decidi não saber o que era. Estava sentado sobre um antigo bote, arriscando-se sobre um objeto visivelmente corroído pelo tempo. – Relaxa, minha gata. Olha, tem coisa escrita aqui dentro. Mais gente veio ver isso aqui. Tem assinaturas do mês passado. Quer saber o que está escrito?

– Eu realmente quero ir embora, Mika – eu suspirei, juntando as minhas mãos em uma súplica. – Por favor, eu estou com medo e dessa vez eu tô falando sério pra cacete. E se tiver alguém vendo a gente? E se isso aqui foi esconderijo de ladrão, prostituta, sei lá, velho? Vão comer a gente de porrada. Eu não quero virar…

– Pára – ele pediu, sutilmente. – Por favor. Só mais um pouco. Olha isso. “Lu e Matheus”. Tem coisa mais brega, velho? E a data é recente. Eles vieram namorar aqui. Ou sei lá. Vai que são amigos só. Tipo a gente. Imagina. Vamos escrever aqui? Vamos colocar o dia de hoje e fingir que esse é um momento de glória? Certeza que essa tal de Lu não imaginava que iria inspirar a gente. Será que não foi o momento dela? Ou dele, né, como saber? Enfim. Será que não foi o momento dele?

– O seu foi melhor do que o dela – eu não contive o sorriso, feliz pela expressão de contentamento que varreu o rosto bonito de Mika. – Eu prefiro cicatriz. Deixa o nome pra lá, de que é que isso adianta? Vem, vamos continuar.

Ele pareceu contrariado, mas cedeu. Com certa dificuldade, eu o ajudei a sair de lá. Xinguei-o mentalmente um milhão de vezes por ter rasgado a calça que eu havia lhe dado de presente, mas não cheguei a verbalizar nada. Não tive tempo, na verdade: logo Mika me puxava, como uma criança desesperada, para perto daquilo que costumava ser um carrossel.

– Você acredita que eles levaram os carrinhos e desmancharam a pista, mas deixaram isso aqui? Por que será? – Ele se perguntou, passando os dedos pelos cavalos destruídos. Aquilo me assustava. Aqueles animais não eram doces. Pelo contrário, carregavam um aborrecimento violento. Pareciam revoltados pelo abandono de tanto tempo. – Você andava muito de carrossel? Eu achava tão… bonito. Mas eu nunca pude andar.

– Por quê?

– Porque naquela época, eu ainda achava que era coisa de menina – ele balançou a cabeça, desgostoso. – Olha o tempo que a gente perde separando as coisas em boas e ruins, em aceitáveis e não aceitáveis, em femininas e masculinas. Essas divisões só servem para criar nas crianças esse sentimento de nojo pelos próprios desejos. E se eu quisesse andar na porra do carrossel? Eu queria. Será que eu posso?

– Está enferrujado, Mika – eu abracei-o de repente, impedindo que ele se atirasse contra a estrutura gasta. – Deixa aí. Você não tem que provar mais nada.

– Provar pra quem? Pro meu pai que cuspia no chão e me chamava de florzinha toda vez que eu pedia para vir aqui? Era normalmente onde o passeio acabava. Nessa hora eu sentava no chão e começava a chorar.

Eu o senti tatear os bolsos. Acendeu um cigarro pouco depois, pensativo.

– Aí ele me puxava pelo ombro para fora daqui e nós voltávamos para casa. E ele sempre prometia que nunca me traria de volta, mas a minha mãe sempre dava um jeito – a fumaça subiu devagarzinho. – Ela nunca me deixou andar também. Não sei o motivo. Isso é que é engraçado. Ela tinha medo de me perder para os carrinhos, mas me deixava ir. Não havia perigo nos cavalinhos daqui, mas eu nunca pude. Do que ela tinha medo realmente? O que você acha? Eu acho que o medo dela era outro. Ela tinha medo do que iriam falar dela, da mãe do garoto do carrossel. Imagina só. E eu, cara? Onde eu fiquei nisso tudo?

– Se você tivesse tido tudo, não estaríamos aqui hoje, estaríamos? – Eu beijei seu pescoço, como sempre fazia quando Mika começava a se aborrecer. Aquilo o acalmava imensamente. – Deixa ir. É hora de deixar ir.

– Tem uma última coisa – eu não pude dizer não.

Caminhamos. A cada novo brinquedo, aumentava a impressão de que eu estava em um cemitério. Eu conseguia enxergar crianças – e aquilo era obviamente loucura. Juntei nossas mãos porque queria chorar. Mika não debochou de mim; pelo contrário. Aceitou e apertou meus dedos num gesto que poderia dizer muita coisa. Eu nunca soube traduzi-lo.

– Aqui – ele falou, parando diante de um muro. Eu produzi um som de confusão. – Sabe o que eu te disse na entrada? Tem um buraco aqui embaixo, tá vendo? Alguém cavou isso aqui e eu descobri quando era menino. Não sei como muita gente não sabia sobre ele.

– Por que não entramos por aqui?

– Porque eu queria deixá-lo por último. Olha só – abaixou-se devagar, procurando por alguma coisa. Ajoelhei ao seu lado. – Aqui. Tá vendo aqui? Não dá pra ler direito, mas é o meu nome. Tem a data e uma frase também.

– O que diz?

– Não dá pra ler bem – ele murmurou, quase como se desculpasse. – Mas eu lembro que era uma mensagem bonitinha, algo falando sobre a vida, sobre beleza. Como toda criança, eu meio que achava que sabia alguma coisa do mundo. Aí eu voltei aqui uma vez e tinha uma resposta.

– E o que dizia?

– Dizia que a vida além do muro não tinha tempo para carrosséis e rodas gigantes.

Solucei.

– E o que mais, Mika?

– Essa é a primeira vez que eu volto aqui desde então.

Eu não disse nada, tampouco ele o fez.

Mika se inclinou e beijou o meu rosto. Daí escapamos por debaixo das frases, de volta ao que nos restava.

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8 comentários em “Sobre adultos e parques”

  1. Acho que você se superou nesse. Sério. Incrível, Sun, incrível. Tocante. Eu adoro como os personagens de seus contos são tão humanos. Maravilhoso. Tô encantada, desculpa, não vai sair nada decente ;_;

    “- Dizia que a vida além do muro não tinha tempo para carrosséis e rodas gigantes.”

    1. Nada, flor. Muito obrigada, mesmo, mas devo dizer que é gentileza sua. Fico incrivelmente feliz por você ter gostado, ainda assim. É importante pacas pra mim, cê nem imagina.
      Muito obrigada pela presença e pelos comentários sempre tão amáveis. ;;

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