Alice, Mika e Ed

Minha menina, meu rebelde, meu desesperado. Pedaços de um pedaço, criaturas de egos tão frágeis e de beleza metafísica. Minha musa, meu desejo, meu último suspiro. Retirados não de um ventre, mas de um cérebro gasto, de um coração que se perde em batimentos. Retirados de tão de dentro que são mais filhos do que quaisquer outros filhos poderiam ser.

O que era, o que vem e vai, o que talvez não volte, o que está sempre aqui, o que berra nos meus ouvidos. Demônios que me cospem na cara e anjos que me lambem os dedos. Não sei bem; acho que me perdi na estrada, na confusão de nomenclaturas e vontades sórdidas, nas confissões das quais me envergonho. Acho que recorro a eles quando não consigo assinar; às vezes eu não aceito o que me move, o que me vem à cabeça. Às vezes desejo ir além.

Regurgitei sangue no papel. Alice sentou-se sobre as minhas pernas e me envolveu o pescoço como uma criança. Alice chorou comigo e depois se foi. Pendurou-se na sacada, um lindo móbile, um lembrete do qual eu não devo esquecer. Eu sei o que ela quis dizer. Ela se foi, mas ela está aqui.

Mikael sorveu do meu ódio em taças de cristal; atirou-as em mim e pediu-me desculpas e eu aceitei, porque era o que eu queria. Eu queria que ele me deixasse assim, com esse osso exposto, com essa ferida que não sara. Eu quis. Então, ele também foi embora. Meteu o cigarro entre os lábios, acenou-me um adeus dramático (porque eu e ele, carne e unha, não sabemos fugir das cenas teatrais) e correu mundo afora. Ele disse adeus, mas suas mãos afagam meus ombros.

Ed agarrou os meus cabelos e me mandou reagir. Disse que eu não podia mais Alicear, disse que eu não tinha permissão para me entregar às minhas cismas. Ele me disse que eu deveria me encarar, dominar essa fera, matar a doença que eu adquiri sozinha. Sozinha, ele enfatizou milhões de vezes. A cura vem de mim, ele me fez compreender. E me desafiando, também partiu. Atirou-se do telhado, ruflando as asas, os braços abertos, derramando sobre mim um sem número de orações. E como os outros, está aqui. Quietinho, sem se intrometer, mas está aqui.

Minhas convicções, meus farrapos, meus atos falhos. E eles me dizem agora que eu devo viver como eu e não como o que sobrou deles. E eles fazem sentido. E eu aceito.

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4 thoughts on “Alice, Mika e Ed”

  1. Eu juro pra você que a primeira coisa que veio à minha cabeça quando terminei de ler o texto foi “puta que pariu, Sun”. Eu sempre amei muito os seus personagens, como já disse uma vez, são tão humanos e íntimos. E agora que você os explicou – ao menos um pouquinho – pude entender o porquê. Incrível. Incrível. Nunca canso daqui, socorro ;_;

    1. AHHH! Cara. Caaara, valeu demais. Muito obrigada por essas palavras e pelos comentários encorajadores .-. Fico incrivelmente grata e lisonjeada. Muito obrigada mesmo, Larissa gatam.

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