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Ela suspirou, os olhos no teto. Sentiu quando ele abraçou sua cintura e pensou em repeli-lo, mas não se moveu. Mordiscou o lábio inferior ao ouvi-lo ressonar baixinho.

Kay partiria logo cedo, seu cachecol amarrado no pescoço, um cigarro entre os lábios e aquele sorriso que silenciosamente debochava dela. Clarice quase riu, fechando os olhos; a vida era uma tremenda vadia, dessas que rouba sua carteira quando você pensa que está tranqüilo. Uma puta de uma comparação cretina, adicionou depois.

Pousou uma das mãos sobre o rosto, bufando. Sua cabeça doía como o inferno, mas levantar para tomar remédio estava fora de cogitação. Um movimento mais brusco despertaria o jovem em seus braços e provavelmente o faria sair da cama. Não. Clarice não desperdiçaria um segundo sequer, porque não sabia quando aconteceria de novo. E se aconteceria de novo. O fato era que ela estava sempre esperando para ouvi-lo dizer que era a última vez.

Olhou para o rosto adormecido. Ele parecia quase angelical daquela forma, com os cabelos louros presos na testa suada, os lábios partidos e vermelhos. Clarice sorriu amarga. Os princípios belíssimos de amar e deixar livre não faziam sentido, percebia. Se deixar livre para decidir-se ser livre é uma prova de amor, colocar o cabresto deveria significar devoção, certo? Percebeu que certos ditados só são bonitos e convenientes quando se é o narrador, não o protagonista.

Riu baixinho, finalmente. Envolveu lentamente o pescoço do outro, juntando as testas. Manteve os olhos bem abertos, passeando pelas pálpebras cerradas, pelo nariz afilado, pela boca bem desenhada. Ele era bonito. Realmente bonito. Mas Clarice sabia mais, via mais do que aquilo. Havia algo nele que a fazia bater os joelhos como uma adolescente sendo convidada para o baile.

Ele era uma mistura linda. Era real. Aquilo era o mais incrível nele. Ele era uma bagunça, uma contradição de pernas grossas e abdômen tatuado. De defeitos irritantes e qualidades imensas.

Clarice odiava quando ele esquecia a geladeira aberta ou quando enfiava embalagens de doces nos vãos do seu sofá. Tinha sérios impulsos de empurrar seu rosto na privada quando ele quebrava alguma coisa – o que acontecia freqüentemente, porque ele era tremendamente desastrado. Odiava (sinceramente) o fato de ele falar de boca cheia e não lavar os pratos, assim como sua mania de querer sempre estar certo e discutir mesmo quando não sabia bem sobre o que estava falando. Ele era um pé no saco quando bebia demais e definitivamente uma mala quando contrariado.

Mas volta e meia vinha derretido quando notava que havia feito bobagem. E a forma como deslizava as mãos pelos quadris de Clarice e mordia seu ombro faziam com que sua raiva derretesse. E o jeito de criança e a voz de mel e açúcar liquidificavam as suas entranhas e a impediam de continuar emburrada. Ele deveria ser proibido quando queria ser adorável, porque era impossível resistir a ele. Com que coração ela lhe negaria todas as coisas que ele pedia com aquele timbre encantador?

Ele ria quando via desenhos animados. E mesmo que aquilo parecesse insignificante, Clarice sentia o coração flutuar quando o via encolhido, o rosto contorcido num sorriso divertido, as risadas ecoando pela sala, soando como música. Soando divinas. E Clarice sabia que era uma boba apaixonada. E não se importava realmente, desde que pudesse continuar assistindo-o.

Ele não sabia cozinhar, mas se sentia no direito de reclamar quando outra pessoa lhe fazia o favor de preparar algo comestível. Clarice se divertia tentando acertá-lo com uma frigideira quando ele criticava as suas receitas de farinha com grama. Ele não saberia fritar um ovo sem disparar todos os alarmes de incêndio.

Riu de novo. O fato de ser imperfeito fazia dele a pessoa mais estranhamente necessária do mundo. E mesmo quando Clarice o odiava – naquelas frações de segundo em que não conseguia pensar direito -, ela sabia que não agüentaria viver sem suas opiniões extravagantes. Sem seus dedos melados de chocolate e os olhos que fingiam que não havia nada entre eles.

Os olhos que brilhavam quando estavam juntos e que buscavam abrigo nos olhos dela quando a tempestade parecia forte demais. Clarice apertou-o um pouco, subitamente amedrontada. Ouviu-o resmungar, mas não interrompeu o gesto. Permaneceu ali, seus braços quase como correntes ao redor dele.

– Que horas são? – O louro perguntou, rouco, bocejando pouco depois. Clarice controlou a respiração.

– Ainda é cedo – sussurrou, vendo-o piscar e encará-la, preguiçoso. – Pode voltar a dormir.

Ele apenas concordou, voltando a se acomodar, seus lábios partidos e a respiração branda. Ele adormeceu pouco depois, mas Clarice não pregou os olhos. Sequer chegou a cochilar. Manteve-se ali, quieta, a mente cheia.

O sol invadiu a janela entreaberta aos poucos. Clarice segurou-o contra si de forma protetora, esperando pelo momento em que ele se desvencilharia, beijaria seu rosto e deixaria a casa.

Ele sempre fazia aquilo. Não trocavam palavras, não marcavam um retorno. Mudos, entreolhavam-se e sorriam de canto, um na cama e o outro rumando para fora. Sem promessas de amor, bilhetes, pedidos. Eles tinham um pacto.

A luz atingiu-os nos pés. Ele se movimentou, preguiçoso, incomodado pela quentura na altura dos tornozelos. Ergueu uma das pernas, pousando-a sobre as pernas de Clarice, resmungando.

– Francamente – murmurou baixinho. – Amanhã nós vamos mudar sua cama de lugar.

Clarice entreabriu a boca, chocada, mas não pronunciou uma sílaba sequer. Mordeu o lábio inferior e não se moveu.

Pelo resto da manhã.

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6 comentários em “Post anterior”

  1. wow, Sun. Cá estou eu encantada de novamente. O jeito como você descreve pessoas é maravilhoso. É um negócio que atrai, não tem jeito. Aliás, a sua escrita é maravilhosa, né, mas todos já estão cientes disso. Essa sua capacidade de expressar determinadas coisas desse jeito… Mexe, sabe? Pelo menos comigo. Parabéns, de novo e de novo.

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