Sobre como os quadris falam

Para ela.

http://www.youtube.com/watch?v=eB8TnjMQxAI

Emily deixou que os dedos passeassem pelas pernas brancas bem devagar, aventurando-os por debaixo da saia volumosa pouco depois. Sorriu um sorriso emoldurado de vermelho e prendeu as bordas da saia na cinta-liga, oferecendo as pernas.

– Mas me fale de você – pediu o homem que estava diante dela, mão erguida em sua direção, olhos crescidos nas canelas grossas. – Me conte tudo. Quem é você, de onde vem esse rosto? Conte-me da sua vida, da sua história.

– Quem eu sou, essa é uma boa pergunta – ela deslizou para perto. Afastou os joelhos dele e cravou o salto no pequeno espaço que separava as suas coxas. Ele se sobressaltou, mas não ousou fugir dela. – Depende do quanto você me pagar. Posso ser muita coisa. O rosto, era isso? O rosto é só um acidente. Não é mérito. Tive sorte.

Ele concordou porque, oras, como não concordar? Ela tinha olhos pequenos e cílios que pareciam prestes a roçar nas sobrancelhas. Tinha uma boca bem feita, um nariz até que meio fora de proporção e cabelos que escorriam pelos lados da face como se tivessem sido desenhados. Era exótica. Exalava sexo. Tinha quadris que falavam. Era incontestável.

– Você não é daqui – ele concluiu enquanto traçava a sua panturrilha. – Seu sotaque é diferente, mesmo que você tente disfarçar. Fale-me de você.

– Convença-me – ela fez troça e ele, rapidamente, enfiou uma nota gorda em sua meia alta. Ela lambeu os lábios e levou as mãos pequenas para trás das costas. – Toda história tem mil versões. Qual você quer saber primeiro?

– A verdadeira.

– Nunca é assim tão fácil, não é mesmo? – Ela piscou enquanto soltava os laços que prendiam seu espartilho. Não parecia ofendida. – Você vem até mim, invade o meu quarto, me oferece umas migalhas e pede por uma vida que não lhe pertence. Quanta audácia.

– Abaixe aqui. E vire – ela obedeceu. Afastou as mãos e permitiu que ele a ajudasse em sua tarefa. – Eu só quero saber o que te fez ir embora de seja lá o lugar de onde você veio. Ninguém vem parar num puteiro quando tem outras opções.

– Eu não faço programa – ela falou, calmamente. Engatinhou para longe dele, subindo devagarzinho, permitindo que ele a observasse. O espartilho caiu ruidosamente e algumas contas rolaram pelo chão, mas ela não pareceu preocupada com isso. – Pobre menina do interior procura afeto num clube lotado, se fode e decide mexer com o coração alheio para se sentir mais interessante.

– Próxima.

– Pobre menina rica, cheia de criados e com uma vida sexual de dar inveja, decide viver por si só e vai para longe só para poder tirar a roupa.

– Próxima.

– Vagabunda sem coração que destrói homens.

– Próxima.

– E mulheres também.

Ele gargalhou, acendendo um cigarro. Ofereceu um a ela, que aceitou. Tinha os seios desnudos, mas parecia completamente despreocupada. Controlada. Controladora.

– Quando descobriu que sabia dançar?

– Eu nunca descobri isso; quem foi que lhe contou algo tão estúpido? – Ela movimentou o corpo, deixou que a cintura fina quase roçasse no rosto dele.

– Você quer me seduzir? – Ele perguntou e ela ergueu uma das sobrancelhas. – Você está me tocando. As meninas não tocam a menos que queiram algo em troca.

– E eu quero algo em troca – ela falou, bastante serena. – Use a sua boca adorável menos para elogios e mais para negócios. Notas fazem bem. Gorjetas excitam. Um homem só me interessa quando me dá dinheiro o suficiente para não ver muitos homens durante a noite.

– Você é sincera – ele deixou que a nota roçasse no abdômen dela antes de enfiá-la no cós da saia. – Ou mente pra cacete.

– Escolha a versão que mais lhe apetece, bonitão – ela riu, deslizando para longe. – Ouve essa música? Eu gosto muito. Ouvia muito quando era mais nova.

– Quando era um bebê? É impossível que você seja muito mais nova do que eu acho que você é.

– Eu tinha quarenta e dois aos doze anos – ela disse, mexendo nos cabelos negros.

– E quantos anos você tem hoje?

– Idade suficiente – ela desabotoou a saia, deixando que ela escorregasse aos poucos. Lançou-a para longe da mesa e ajoelhou-se. – E o que um lindo homem de meia idade faz aqui hoje?

– Acha mesmo que eu sou lindo?

– Ah, meu Deus, um inseguro – ela riu. – Bonitinho. Como vocês no café da manhã. Gosta das minhas pernas?

– Gosto.

– Entre para o time – ela deslizou, sentando-se de uma forma que enfatizava a sua quase completa nudez. – Em qual história você acredita?

– Vagabunda destruidora de homens e mulheres é menos provável do que menininha do interior – ele murmurou, esticando-se para tocar em sua perna. Ela permitiu. – Por que você veio para cá?

– Meu bem – ela afagou o rosto dele e deixou que a mão deslizasse para o peito longo depois. Enfiou os dedos por dentro do paletó e alcançou sua carteira. Ele não se moveu. – Andrei, bonito. Andrei, meu querido, não me pergunte coisas que eu não quero dizer. Pergunte-me se já tive um cliente tão bom quanto você.

– Você já teve algum cliente tão bom quanto eu?

– Já. Mas nenhum tão divertido.

– Por quê?

– Porque você finge que se importa com a vadia que você alugou para tirar a roupa para você – ela deu os ombros. – Não me ofendo. Vou levar o seu dinheiro enquanto você acha que leva a minha dignidade. Bom proveito. Conte aos seus amigos que a puta tinha coxas incríveis e que você a colocou no lugar dela enterrando notas de cem em sua roupa de baixo. Sinta-se orgulhoso.

– E essas palavras, de onde elas vêm?

– De dentro.

– E o seu rosto transfigurado?

– Da vida – ela se levantou.

– Por que você vai sair?

– Seu tempo acabou.

– E se eu te der mais notas de cem?

Ela gargalhou.

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2 comentários em “Sobre como os quadris falam”

  1. Gostei tanto desse, tanto. Seus diálogos sempre me impressionam.

    Eu ia te pedir pelo formspring, mas aproveitando que estou aqui… gostei bastante da música que acompanhou o post. Poderia me indicar mais músicas da banda? Acho que vou gostar :3

    1. Larissa! Há quanto tempo eu não te via. Muito obrigada, linda.

      Então, LAM é maravilhoso. Adoro muito e eu acho que você também curtiria. Recomendo: The bondage song, HATE, Sacrifice, America is a fucking disease, The spider and the fly.

      Os CDS são MUITO bons.

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