Às vezes é preciso voltar para ter certeza de que nunca deveria ter ido embora.

Depois dos anos, eu te observo. Você com as coxas que sempre saltaram dos shorts e com a cara lavada de maquiagem. Bem, a cara limpa é nova; o resto ainda é igual. Você com os cabelos compridos e o jeito de menina mesmo depois dos vinte e cinco. Você com o riso fino que faz as minhas orelhas sangrarem. Eu o odiava imensamente, mas juro que hoje acho até bonitinho.

Nós duas deitadas no tapete do seu quarto, em meio a travesseiros, revistas, cds muito antigos e álbuns de fotos que fedem a mofo. Somos as mesmas, mas tudo está diferente. Eu não sei o motivo, mas está. Eu te digo isso e você ri e eu penso que bem, não é a hora de falar sobre o quão estranhas uma à outra a vida nos tornou.

Você termina o seu quarto cigarro e o enfia até o talo no cinzeiro ao seu lado. Eu fico te encarando porque tem algo em você que me parece familiar e acolhedor e algo que me faz querer fugir de casa, ao mesmo tempo.

– O que é que você está vendo? – Você pergunta, passando a língua pelo resto do batom rosa. – Eu gosto muito dessas coisas que eu coloquei no teto, cara. Eu não sei se elas são o que eu acho que elas são, mas nossa. São estrelas e cobras e tem aranhas que se mexem e eu normalmente não gosto de aranhas não, mas elas estão tão distantes que eu juro que consigo até achá-las bonitas.

– No teto só tem infiltração – eu garanto, meio amarga, porque um dia eu vi exatamente o que você via. – Você tá chapada pra cacete mesmo.

– Sério? Cê não tá vendo as luzes, agora? Que coisa incrível – você murmura, encantada e eu sorrio porque você agora é de novo a minha menina. – Eu nunca pensei que as coisas ficariam assim tão bonitas depois de três comprimidos. Três! Eu nunca tinha tentado isso, mas é do caralho.

– O que foi que você tomou, mesmo?

– Ah, eu consegui umas balas – você rola preguiçosamente para um lado e para o outro e eu me pergunto o que diabos você está tentando fazer. – E essa música foda que você colocou?

– É Silverchair – eu digo com uma saudade que me toma o peito. – Tomar um ácido e ouvir Silverchair não te faz sentir igual aos seus pais?

– Não – você ri e balança os cabelos e você tem fios brancos e eu não sei lidar com isso. – Minha mãe é careta. Meu pai não me conta nada, como é que eu vou saber? Acho que o máximo de rebeldia na vida da minha mãe foi pintar as unhas de roxo. Imagina ela pirada?

– Ela veria pôneis e livros de gramática.

– Bizarro.

– Bizarro. O que mais você está vendo?

– Tem um homem na minha cama.

– Como se você não visse isso sempre.

Você ri o bastante para que lágrimas escorram e eu não acho que você queira rir.

– Sabe por que eu gosto tanto de ficar assim?

– Por quê?

– Porque eu não tenho medo de mim mesma quando eu tô drogada. Porque eu não fico olhando pros meus braços fodidos de tanta mancha roxa e pros meus pés inchados de bolha de tanto trabalhar e eu não penso nessas merdas todas que eu vivi depois que você foi embora, cara. Faz tempo pra caralho, você acredita? Você tinha o quê, uns dezessete? Uns dezessete e meio? Você sempre contou os anos pela metade, que porra de medo de envelhecer você tinha.

– Eu tenho – corrijo. – Eu tenho, mas eu não estou velha. Só menos jovem. Só menos louca. Só menos inclinada a tomar um porre de Cantina da Serra e vomitar na cama da minha mãe.

– Você está velha, minha amiga, é só isso – você me diz e fecha os olhos devagar e a merda do sorriso ainda está lá e eu quero bater as suas edições de colecionador de cds que eu não ouço há muito tempo na sua cara até que os seus dentes quebrem. – Você está velha e não consegue ouvir mais a nossa música. Eu tô decadente, eu tenho cara de puta louca, mas eu sou feliz. Eu sou pateticamente feliz.

Eu penso em gritar com você, mas o seu contentamento é tão seu que me dói pensar em destruí-lo. Seu contentamento é tão seu e me dói muito pensar que um dia foi o meu também.

E eu te beijo na testa e te arrasto para a cama e deixo que as suas canções te botem para dormir. E eu acendo meu cigarro vermelho com cara de quem quer morrer e vou embora e no caminho penso, choro e vejo que às vezes é preciso ir embora com a certeza de nunca mais voltar.

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