Conto aleatório e incompleto, criado depois da leitura de “O sobrevivente”, de Chuck Palahniuk.

Poucas coisas vêm à sua cabeça em um momento de choque. Poucas coisas são filtradas pela sua razão em momentos de crise. De um minuto para o outro, acontece a quebra. E você, antes tão dono de si, tão cheio dos balangandãs, bem, aqui está você. Seus dígitos dizem sim, sua boca diz não. Seus olhos fixos na cena e o filme rolando em câmera lenta na sua cabeça.

Pensando, assim, como quem não quer nada: você estava certo. Ela realmente estava tendo um caso, a filha da puta. Não que ela não tivesse direito de enjoar de você – não, na verdade ela não tinha -, mas por que na sua cama? Por que nos seus lençóis recém-comprados, nos travesseiros de pena de ganso? Não podia ser na porra da sala, no sofá velho de couro? Seria só passar um pano e tirar o cheiro de sexo e tudo bem. Nada mais seria dito, a vida prosseguiria e não seria preciso atear fogo em dois meses de parcelas sem juros.

Bufou, apoiando as costas contra a porta, a respiração finalmente começando a se normalizar. Observou a bagunça sobre o leito. Não havia nada de excepcional naquele outro corpo. Pernas, braços, um pouco de pêlo, uma pequena precipitação na área do abdômen. Era normal de uma maneira que o afrontava. Esperava, ao menos, ser trocado por alguém cujas características físicas fossem menos convencionais. Desgraçada.

Massageou as têmporas com as pontas dos dedos e percebeu que tremia. Quem não tremeria, numa situação daquelas? Tentou se lembrar do que havia aprendido nos filmes. Cogitou procurar na internet, mas imagine só: “Como se livrar de dois corpos sem que os vizinhos percebam? Ps.: Eu não tenho porão, não como carne e não quero esquartejar ninguém”. Seriam quinze minutos até a polícia chegar querendo a sua bunda. Não era uma opção.

Sentou-se no chão e observou a arma caída. Ela ainda cantava nos seus ouvidos. Um tiro, dois, o terceiro foi por precaução. Depois do primeiro, não havia retorno: era terminar o serviço ou terminar o serviço. Arrependeu-se. A arma nem era registrada. Merda. Duplo homicídio com uma arma de fogo ilegal. Estava fodido num nível que faria com que os demais fodidos parecessem ganhadores de loteria.

Por que havia apertado o gatilho? Não seria mais fácil fotografá-los, colocar as fotos na internet, ganhar milhões com um pornô amador? Eram tantas opções tão melhores do que virar um assassino e ele não havia conseguido pensar em nenhuma enquanto presenciava algo que, de certa forma, não era tão surpreendente assim. Recolheu a arma e guardou-a dentro da calça. Poderia jogá-la num riacho. Será que ela desceria pela privada? Talvez. Tentaria mais tarde, de qualquer jeito.

Deixou o quarto. Alcançou a cozinha. Preparou-se um sanduíche de queijo cottage e alface americana. Achou presunto. Enojou-se. Deus o livrasse de comer algo que um dia já esteve vivo. A idéia de comer presunto lhe apetecia tanto quanto a idéia de comer uma perna humana.

Retornou para o quarto. Mexeu nas gavetas ao lado da cama. Achou seus cigarros e o zippo que ela havia lhe dado umas semanas antes. Fumou dois vermelhos antes de ter coragem de atear fogo nos travesseiros. Observou enquanto queimavam e suspirou, tristonho, pensando que jamais deixaria outra mulher usufruir daquilo que havia levado tanto tempo para comprar.

Verificou se as janelas estavam fechadas. Segurou a ânsia de vômito quando o cheiro de carne invadiu as suas narinas. Deus. Recuperou um sobretudo antes que este começasse a feder e deixou o quarto depressa, fechando a porta atrás de si. Pôs a chave no bolso, passou álcool nas mãos e atirou o resto no tapete da sala.

Sentiu-se miserável ao virar a esquina. Acendeu mais um cigarro quando lhe veio à cabeça a lembrança dos lençóis queimados. Pobres gansos, pensou ele. Morreram em vão.

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