Do desatino

Talvez tenham sido aquelas calças de fino trato, aquele cachecol verde, seus cabelos meio embaraçados, sua voz aveludada e carregada de sotaque. Talvez tenham sido os olhos, a mordida no lábio, os dedos compridos e as cervejas que eu bebi enquanto juntava coragem de chegar perto de você. Não sei te dizer ao certo o que foi, mas lá vai a verdade: enquanto você sorria para mim e falava sobre esses programas e músicas que você ama e fumava aquele cigarro mentolado que eu acho sinceramente horrível, eu me encantava por você. Sem volta. Sem escolha. Como se isso fosse do meu feitio.

E você disse que gostava de atores antigos e jazz e saxofonistas e eu falei que gostava de blockbusters e sintetizadores e pessoas com calça de couro. Você falou das suas viagens para a Inglaterra, das idas ao interior, do cheiro de mato e da saudade das suas origens e eu complementei que gostava tanto da cidade que morreria no dia em que não tivesse fumaça para cheirar. Você me observou com um olhar que não me disse muita coisa e perguntou se eu não sentia saudade de casa.

A verdade, eu tentei dizer, é que a minha casa é onde eu estiver confortável em estar. Eu estou suficientemente bem aqui para desejar qualquer outro lugar. Você parece uma boa casa, se importa se eu ficar?

Tudo o que realmente saiu foi: não, não sinto. E você aguardou um complemento que não veio e eu sorri e pedi outra bebida. Um pouco mais, meu Deus, por favor, e permita que eu não torne isso pior. Houve então o silêncio e eu tive a certeza de que estava estragando tudo; todos os jantares em Paris e as tardes que poderíamos gastar com livros, cobertas e películas iraquianas desinteressantes. Você emendou um cigarro no outro e eu achei sábio mudar o rumo da conversa.

Você fuma há muito tempo? Sim, fumo. Quando começou? Quando tinha quinze anos e meu pai esqueceu o maço dele em cima da escrivaninha. Seu pai tinha uma escrivaninha? Tinha. Ele era escritor? Não, jornalista. Sempre quis ser jornalista. Eu sempre quis ser cineasta. Podemos ter filhos? Essa última pergunta eu não verbalizei, entretanto. Apenas assenti, elogiei, disse que fazia teatro nas horas vagas e que recebia Oscars quando estava tomando banho. Você ergueu uma das sobrancelhas e me ofereceu uma expressão divertida. Elogiou meu senso de humor. Pensei em dizer que aquela era minha maneira torpe de pedir simpatia, mas terminei rindo.

São as cervejas, comentei e fiz o adendo de que não costumo falar tanta besteira para pessoas que eu não conheço bem. Você sorriu e balançou a cabeça. Não sabia, àquela altura, se você me considerava extremamente interessante ou extremamente desnecessária. Gostaria que não achasse nenhuma das duas coisas, para ser honesta. Nunca gostei das pontas; sempre achei mais seguro cambalear no meio.

Não se preocupe, me disse, então. Eu estranhei a fala, você pôs sua mão em meu ombro. Não se preocupe, não, que eu gosto de gente como você. Essas pessoas que falam, que não se contêm em si mesmas, eu gosto muito delas.  E eu espero não ter suspirado tão alto quanto acho que suspirei (porque você fez uma cara cômica e seus olhos voaram para a televisão próxima).

Pensei: olha só, você está errado, mas não tem problema. Eu falo demais porque sei que, se falar de menos, vou passar despercebida. Eu não me contenho porque já me contive por tempo demais. Se hoje pareço ter ânsia de tudo, é porque já tive muitas vontades que não pude sanar.

Digo: obrigada, você é muito gentil. E parece errado aos meus próprios ouvidos e você faz cara de dúvida e balança a cabeça. Consulta o relógio discretamente, afunda o cigarro no cinzeiro próximo e eu sei que não vou gostar do que vem depois. Preciso ir. Eu sei, tudo bem. Não leve a mal. Não levo. Te vejo logo? Claro que sim.

E você me abraça e eu finjo que isso é casual, que é meu natural procurar abrigo no seu ombro. Você me afaga as costas como quem acaricia uma criança e eu me sinto pequena no seu abraço imenso. E é esse o fim da história, o fim que não seguiu o script da noite que eu planejei no momento em que seus pés ruidosos chamaram a minha atenção.

Enquanto afundo na minha cadeira e peço não uma cerveja, mas duas, eu penso que não vou conseguir andar sozinha para casa. Que vou precisar pegar um táxi. Que vou contar minhas tristezas para um motorista qualquer e vou querer vomitar nos bancos de couro dele. E você podia ter me oferecido uma carona, mas não ofereceu. E  bem, isso não é incomum e abro a nova lata e a bebida desce cortando. Desce azeda, como numa represália, me dizendo que eu vou passar muito tempo pensando nas noites em Paris e nos filmes que nunca vamos ver.

Anúncios

4 thoughts on “Do desatino”

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s