Sofia

Eu conheci a Sofia sem querer. É como eu sempre conheço as pessoas, no final das contas. Eu não espero por elas e elas não esperam por mim. Acabamos sempre desejando muito uns dos outros e é normalmente essa a hora em que precisamos nos desconhecer e achar substitutos para as nossas necessidades.

Sofia entendia isso muito bem. Vivia me contando as histórias de todos os que vieram antes de mim e os motivos pelos quais ela sempre saía para comprar cigarros e não voltava mais: chega um momento, ela me dizia, em que é preciso abandonar as camas velhas, os lençóis usados, as xícaras de café de todas as manhãs. É triste quando as pessoas se acostumam. Sua presença perde o impacto, suas piadas passam a se repetir. É cansativo, pois sim, é cansativo ser a mesma pessoa, no mesmo lugar, com a mesma ladainha.

E vinha a declaração: É por isso, meu bem, que eu não dou tempo para ninguém me tornar rotina. Sempre ouço por aí que fulano estava querendo saber para onde eu fui, que beltrano quer me encontrar para devolver os cds que ficaram com ele. Não quero pegar minhas coisas; eu não preciso de coisas. Tudo é tão bobo. Quem se importa com meia dúzia de discos? Que ele fique com eles, que chore dia e noite pensando em como foi bom aquele mês que a gente passou, aquele mês com aquela louca que mudou a minha vida. Quanto menos tempo eu ficar, mais vou fazer falta, entende?

Sim, Sofia, eu entendo, eu repetia. Eu estou sempre preparado para o dia em que você decidir que é hora de ir embora. Para onde, Sofia? Em que buraco você vai se enfiar?

E ela ria.

Me deixa uma lembrança quando você for, eu pedia.

E ela deixou, uns tempos depois. Num dia desses, ela meteu seus tênis de corrida, vestiu a jaqueta e jogou a mochila no ombro. Disse que iria ao mercado. Eu a beijei, pedi para que ela olhasse para os dois lados antes de atravessar a rua e obriguei-a a vestir meu cachecol favorito.

Eu sabia. Ela sabia que eu sabia. Não fingiu o contrário. Beijou o meu rosto duas vezes depois, girou nos calcanhares e bateu a porta atrás de si.

Ficaram seus cigarros e a sua coleção de artefatos surrupiados de amantes antigos. Sorri quando encontrei-os no armário. Sofia recomeçaria a vida do zero no dia seguinte, a partir de mim. Achei bonito. Achei coisa da Sofia. Esperei que ela falasse de mim com carinho para o próximo. Que se voltasse para ele com a cara limpa e dissesse que bem, você sabe, houve esse cara antes de você, e ele foi o único.

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