Do buraco

Do fundo, eu grito. Eu grito lá debaixo e esse breu que me cerca já é tão familiar que não devia assustar – mas assusta. E dói porque vem de todos os lados, porque me agarra as pernas, porque me sussurra nos ouvidos todas as coisas terríveis das quais eu venho tentando fugir há anos. O buraco lá do alto parece o céu e eu penso que nossa, devo estar mesmo muito longe da saída.

Não há escada que ajude, quando você está assim no fundo. É fundo demais. O fundo do fundo do fundo. Há uma placa lá em cima, eu vejo bem, uma placa cujas inscrições eu não consigo ler, mas é vermelha e provavelmente diz cuidado, poço, cuidado, sem fim, cuidado, escuro. Eu tenho medo do escuro. Implorei para que ligassem a luz, quando vim pra cá. Imploro ainda, mais por hábito do que por esperança de que vai mesmo acontecer. Eu tenho medo do escuro porque o escuro é muito real.

Do fundo, o fundo parece o final de tudo. E tenho medo de que seja só o início.

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