Para ler ouvindo:

Flashes. Luzes coloridas que me embaralhavam a vista e que permaneciam piscando mesmo quando eu cerrava os olhos. Flashes e vozes altas e aquele som delicioso de gargalhadas entrelaçadas. Suas mãos esmagadas contra as minhas e nós dois esmagados um contra o outro, desafiando o movimento dos outros corpos da pista. Você tinha gosto de Contini e cigarro; eu tinha gosto de sal, limão e álcool barato. A mistura não poderia dar certo em outro contexto, mas era tudo do que eu precisava naquele momento.

Seus dedos firmes na minha cintura, traçando contornos, buscando reconhecimento e eu me declarando sua propriedade sem nem perguntar o seu nome. Encaixotei meus murmúrios em notas musicais. Busquei seus lábios quando você os afastou e senti seu sorriso contra a minha boca aflita. Um breve beijo me roubou os suspiros e eu deixei. Eu deixei, porque me parecia uma ótima idéia deixar e eu não estava acostumada a ela. Eu deixei porque me doía saber que eu nunca havia deixado antes – quantos mais antes de você, e quantos tão bons quanto, e eu não tive coragem?

Rodopiamos no lugar. Luzes. A música oscilava, perdia velocidade e aumentava de repente e eu estava confusa, mas completamente entregue. Havia um caos ao meu redor: uma multidão de corpos, mil e uma cores, os ruídos das mãos nas roupas alheias soando tão alto como aquilo que vinha das caixas de som. Havia um caos e eu tinha gosto de fumaça e ácido na boca e eu queria mais. Enrosquei meus dedos na gola de sua camiseta e você riu. Você riu porque eu devia parecer uma dessas meninas desesperadas por carinho e atenção e eu de fato era e eu não quis esconder. Você não se deu ao trabalho de fingir que não percebeu que eu não tentei esconder. Afagamos quadris, puxamos cabelos. Sua voz soou rouca, quase como que estimulada pelos gemidos da canção que tocava e eu pensei que havia algo errado na forma como as palavras chegaram aos meus ouvidos. Vieram lentas, transfiguradas, ameaçadoras, até. Pedi: repete. E você repetiu e eu não entendi. Então você me afastou devagar e me girou nos braços e me fez dançar outra vez e qualquer coisa dita não fez a menor diferença.

Você me beijou de novo e algo desceu pela minha garganta como se quisesse cortá-la, mas seu aperto carinhoso afastou o incômodo. As batidas ritmavam o meu coração, ditavam a forma como eu movia meus pés no chão cheio de latas. As vozes iam e voltavam, ora ferindo meus ouvidos, ora soando como canções de ninar. Minhas pernas amoleceram e eu deixei que meu peito caísse contra o seu, sua gargalhada parecendo um afago. Você continuou me conduzindo e teria sido bom – ah, teria sido lindo -, mas de repente acabou. Eu estranhei a movimentação. Alguém nos separou e eu busquei as suas mãos porque percebi que não poderia viver sem elas. As luzes piscavam tão rápido que era difícil compreender o que estava acontecendo.

Deslizei pelo chão, mas parei quando a superfície pareceu amolecer debaixo dos meus calçados. Produzi um som de surpresa diante da tontura e recuei, trombando com outros, sendo tocada por eles e eu gritei. Eu gritei até que me taparam a boca, que me atiraram contra a parede pedindo calma. Não me venha com isso, eu chorei, meu peito apertado pela ausência do conforto, meus olhos sondando o pulsar das cores em busca de uma silhueta conhecida. Não me venha com calma, se o pouco de calma que eu tive foi tirado de mim.

Braços. Choramingos. Não me tire daqui, não me tire de mim, há uma vida horrível lá fora e aqui é tudo tão lindo. Aqui nada dói. Flashes e água sendo empurrada goela abaixo, dissolvendo aos poucos os resquícios de você. Algo contra as minhas costas. A falta. Os toques. Não consegui me importar. Assenti. Apoiei a rosto em meu pulso e fechei os olhos.

A música cessou.

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