O que fazem

Daí eu via aquelas figuras mágicas na televisão e ficava me imaginando no lugar delas, de vestidinho rodado e varinha de condão, pronta para salvar mocinhas de terríveis rocas de fiar e das madrastas de sobrancelhas grossas e olhar punitivo. E eu me pegava pensando em como seria bom modificar tudo num giro de pulso, transformando trapos em saias godê. Um dia voltei meus olhos para a minha mãe e disse: mãe, quero ser fada. Ela me sorriu um sorriso compreensivo, afagou a minha cabeça, comentou como quem não queria dizer nada demais que eu só queria ser fada porque não sabia o que uma fada fazia. Falou assim: fadas têm que correr para cá e para lá, com aqueles chapéus engraçados, fazendo vontades de meninas mimadas. Fadas fazem tudo pelos outros e terminam sós.
Não quis mais ser fada.
Uns tempos depois, decidi ser princesa. Não devia ser ruim ter uma fada de companhia, no final das contas. Que ela me desse tudo o que eu queria. Que me fizesse alta, loura e de olhos azuis, pateticamente pálida e perfeita, esperando o cavalo branco, esperando a maçã envenenada, esperando a bruxa má cair do décimo quinto andar e o beijo redentor que deveria me levar para alguma coisa muito bonita. Minha mãe me apertou no colo e murmurou: não seja princesa, não, que as princesas são tristes! Você só quer ser princesa porque não sabe o que as princesas fazem. Elas ficam nas torres para o resto da vida, parindo filhos atrás de filhos para agradar ao príncipe, aquele soberano sacana, que as resgata para trancafiá-las no matrimônio. Fiquei horrorizada; desisti de tão terrível sina. Enrosquei-me nos próximos contos, passei de bruxa à duende, de gigante à criança encantada perdida na floresta. E minha mãe dizia: não, não dá, não pode. Eu queria tanto, eu queria tudo, mas tudo era feio e borrado, tudo vinha com um preço que eu não deveria pagar. Então a mãe me disse assim: seja humana, filha, basta isso. Viva a sua vida regrada, sem histórias e fábulas. Seja humana.
Eu estava bem com isso, percebi. Que se danassem as cores, as rendas, os sapatos de cristal. Nunca gostei de sapatos de cristal. Que se danassem os véus, os dragões, as serenatas de amor à luz da Lua. Eu estava confortável com a minha condição, enfim.

(Até descobrir o que os humanos fazem)

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