Dormindo com fantasmas

Chove lá fora. Chove mansinho, em gotas largas, mas não faz frio. O tempo pede uns afagos, mas dispensa os cobertores. Pede horas de nadas na frente da televisão, jogados nos tapetes, pontuando silêncios com beijos. E eu, sozinha como não queria estar, beberico de um copo cheio e penso e repenso.

Chove lá fora e parece que me chove por dentro, assim, de vez em quando. Me escorre uma agonia por entre os órgãos e eu soluço, meio aborrecida por não saber o que fazer além de esperar. Esperar, porque sempre passa. Passa, mas volta. E eu espero passar de novo e sigo nesse looping, entregue ao tempo.

Penso que preferia que estivesse frio. Eu calaria os sons do mundo com meia dúzia de edredons e tudo estaria bem até o dia seguinte. Eu tomaria de uma xícara de chá quente e falaria da vida para o fantasma que repousa há tempos na minha cama, saudoso de um corpo qualquer que o faça tomar forma. Eu lhe contaria das minhas histórias vividas, do pouco tempo que me resta, dessas minhas ânsias de sair descalça no temporal, da minha predileção pelos dias fechados. Eu lhe contaria sobre aqueles sonhos risíveis que eu cultivo desde criança, sobre as minhas manias feias, sobre a minha terrível obsessão por tudo o que é bonito e machuca.

Mas está quente. Então eu fico calada e sorvo de um drinque gelado que falha em abrandar a chuva.

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