Helena de São Paulo

Oi!

Tenho uma idéia estranha e quero colocá-la em prática. Do meu amor por São Paulo, brotou a Helena. Não sabia onde enfiá-la, então resolvi fazer isso aqui. Não sei nem dizer o que é isso aqui. Só saiu.

 

– x –

 

Helena ergueu o braço devagar, as estrofes da música que escapava pelo celular soando altíssimas no quarto vazio. Resmungou, agarrou o aparelho e o colocou na altura dos olhos sonolentos, vendo o nome de sua mãe na tela.

– Alô – grasnou ao atender, empurrando o rosto contra o travesseiro.

– Lena, ainda dormindo? Meio-dia e meia, você não acha que está na hora de levantar? Você entra mais tarde no trabalho? Não almoçou ainda, certo? É por isso que não pára de engordar. Não tem hora pra nada.

Helena rolou os olhos e enfiou o celular debaixo do cobertor. Contou até dez mentalmente e tornou a colocá-lo contra o ouvido. Concordou com tudo apenas para não contrariar a mãe, escorregou para fora do cama com uma lentidão brutal e pôs a mão sobre o estômago dolorido. Condenou baixinho a sua saída da noite anterior, sabendo que não deveria ter bebido tanto. Saiu do quarto direto para a cozinha e esticou-se para alcançar a caixa gigante de remédios que guardava em cima do armário.

– Bom dia – uma voz masculina chamou a sua atenção. Helena virou a cabeça para olhar o rapaz sem camisa que fritava (destroçava) ovos com cebola com um garfo afiadíssimo na porra da frigideira de teflon. Respirou fundo para não repreendê-lo. – Você deve ser a Lena, certo? Alice me falou muito de você.

– Pois é – disse ela, sem fazer questão de soar simpática. Colocou a caixa na pia e pôs-se a procurar seus remédios para gastrite e ressaca. O rapaz não respondeu, possivelmente envergonhado pela indiferença da morena. – E a Alice, cadê?

– Não ligue para ela – Alice passou pela porta depressa, os pés enfiados em pantufas de vacas, o pijama amassado, o cabelo chanel transformado num emaranhado de fios oleosos. – Lena costuma ser mais legal quando não vomita na lixeira do banheiro e quebra metade da louça num ataque de fúria alcoólica.

– Eu quebrei metade da louça?

– Uns quatro copos, só – Alice deu os ombros, bocejando. Serviu-se de uma caneca de café. – Esse é o Eric. Nós nos encontramos na festa da formatura da Anna, na qual você deveria ter comparecido, aliás. Ela perguntou de você e eu disse que você estava passando mal em casa e não poderia ir. Trate de desmarcar as fotos do bar de ontem no Facebook, por gentileza, antes que ela veja e a situação fique bem chata.

Helena deu os ombros e empurrou dois ou três comprimidos graúdos garganta abaixo. Percebeu-se de calcinha e camiseta na frente de um desconhecido – um dos mil desconhecidos de Alice -, mas não se importou. O rapaz a olhava com estranheza e admiração e ela fingiu não perceber as olhadelas discretas que ele direcionou para suas coxas roliças.

– Preciso sair – roubou a caneca da mão da amiga, bebeu uns goles, reclamou da falta de açúcar. Acenou para o tal do Eric, girou nos calcanhares e correu para o banho. O serviço lhe aguardava a umas boas estações de metrô de distância.

Lavou o cabelo recém-pintado com o shampoo caro da Alice, pensando na vida. O gosto de bebida destilada lhe infectava o paladar ainda. Prometeu que aprenderia a dosar a bebida, mas lembrou-se que havia prometido a mesmíssima coisa umas semanas antes. Ensaboou-se depressa, cantarolando Édith Piaf no francês mais pífio possível. Deixou o box, saiu enrolada na toalha. Trombou com o novo boy toy da amiga, ouviu-o gaguejar, deu os ombros. Trancou-se no quarto e enfiou-se nas meias de renda e no vestidinho azul de sempre.

– Alice – chamou enquanto secava o cabelo preto na frente do espelho do quarto. A moça apareceu na porta pouco depois. – Vou passar na farmácia mais tarde, você quer alguma coisa?  Saiu um remédio novo pra emagrecer aí, parece que você vai ao banheiro seis vezes por dia e fica com o corpo da Kim Kardashian em um mês. Vou comprar pra mim. Se você quiser, te arranjo um.

– Por que eu gostaria de ficar com o corpo da Kim Kardashian? Enfim – Alice rolou os olhos, pondo a mão na cintura fina. – Cê me traz uma pílula do dia seguinte, então. Mas você precisa chegar até umas dez da noite, beleza? Se for chegar mais tarde do que isso… Nem precisa.

Helena derrubou o secador. Alice gargalhou.

– x –

Caminhou devagar pela rua cheia de gente, as sapatilhas coloridas esmurrando o chão de concreto. Os executivos subiam e desciam, falando alto nos celulares, debatendo metas, solucionando problemas, flertando com secretárias no horário do almoço. Helena tinha os fones enfiados nos ouvidos e permanecia alheia aos sons da cidade. Cantava baixinho algo parecido com I would say I’m sorry if I thought that it would change your mind, desafinadinha com a sua voz de soprano não-treinada e aquilo era tudo o que existia no momento.

Pensou então, adicionando novos elementos àquele mundinho: bem, não seria bom que algo incrível que acontecesse hoje? Que eu me fizesse meio mocinha de filme de romance, caísse no meio da rua e fosse salva de um caminhão desgovernado por um ser humano de cabelos macios e tez azeitonada?  Não seria mal, não, sair um pouco dessa rotina de casa, trabalho, bar, Omeprazol e lixeira vomitada.

Cruzou a faixa de pedestres, olhou a hora. Decidiu que não estava atrasada o suficiente para correr e quis, só por desencargo de consciência, mudar um pouco o caminho até o trabalho. Virou numa rua qualquer e foi-se calmamente.

Se tivesse mantido o trajeto habitual, teria cruzado com um alguém de tez azeitonada e olhos grandes. Alguém de cabelos macios e boca bem desenhada, que também esperava por uma mudança bastante significante naquele dia. Alguém que gostava de livros de ficção, música velha e que cantava também aquele I would say I’m sorry, distraidamente, pensando que não seria ruim, sabe, se a vida resolvesse promover um encontro inesperado em plena Avenida Paulista.

Podia ter sido bonito e podia ter sido hoje. Mas não foi.

 

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