Concierge

Dedicado ao Ivan, uma das minhas inspirações.

Você vê, não é que ele não goste do emprego que tem – trabalhar à noite tem suas vantagens e o salário é até que interessante -, mas certas vezes tudo o que ele deseja é poder desligar o telefone com um palavrão e sair para beber.

É o que passa por sua cabeça agora, na verdade, enquanto uma mulher de voz desagradável e sotaque forçado gasta sua paciência com perguntas sobre as noites eróticas de Honolulu. Minha senhora, ele pensa em dizer, você está no Havaí. Tem praia, homens nus e drinques com chapeuzinhos. Eu preciso mesmo dizer o que há para fazer?

Ajeitou-se na cadeira. Lembrou-se da moça da semana passada, aquela que queria um roteiro de passeio pela Capadócia. Levou dez segundos para se lembrar onde ficava a Capadócia. Manteve a pose, entretanto, enquanto procurava no sistema por informações acerca da animadíssima vida do local. Maldita novela, ele pensou. Ontem era a Índia, hoje é a Turquia. Tomara que amanhã seja o inferno.

Não é que ele seja mal humorado, não. A coisa toda é um pouco mais séria do que parece. Esses ricos excêntricos deleitam-se em pedir ajuda para respirar e andar e parecem preocupados em ter um roteiro excepcional não para aproveitarem a situação, mas para poderem falar com propriedade sobre os magníficos ladrilhos de Varsóvia enquanto enchem o rabo de canapés e Moët. Ele pensa que, se estivesse no lugar deles, talvez preferisse viver por si mesmo. Lembrar para si mesmo. Ir menos pelas sugestões e mais pelo instinto. Pelo cheiro. Atrás do que importa além dos postais e das fotografias segurando a Torre de Pisa ou de braços abertos debaixo do Cristo Redentor.

Saiu do seu torpor quando a voz estridente lhe chamou a atenção. Perguntou: você está me escutando? Você está aí? E as minhas sugestões?

Fechou a página depressa e se recompôs. Estalou o pescoço, limpou a garganta e disse assim: minha senhora, se a senhora deixar o seu hotel, andar reto e virar para a esquerda daqui a seis ruas, encontrará o programa noturno mais maravilhoso de todos os programas noturnos que eu puder lhe recomendar.

Ela ficou em silêncio por alguns instantes. Perguntou-lhe se ele tinha certeza. Ele afirmou com tanta propriedade que quase acreditou. Desligou pouco depois e pôs as pernas sobre a mesa diante de si. Sorriu de canto. Ela lhe agradeceria pela recomendação, um dia desses.

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