Você se engana quando pensa que eu quero

Você se engana quando pensa que eu quero ser igual a você. Você vê: que triste constatação. Não é que eu não goste de você; pelo contrário, sou muito grata pelas horas que já passamos conversando e por todas as coisas que você se empenha em fazer para que eu fique bem (apesar de nossas concepções de bem e mal estar serem muito distintas). Agradeço, como já agradeci todas as vezes que pude até hoje, pelo amor que você tem por mim – e eu retribuo o sentimento. Do meu jeito feio que você odeia, mas eu retribuo e acredite quando eu digo que ele é imenso. O problema, meu bem, é que mesmo com tudo isso, eu continuo não querendo ser igual a você.

Eu respeito as coisas pelas quais você passou. Eu aceito as coisas que te fizeram você, mas por obséquio: aceite você também as coisas que me fizeram eu. Muitas delas você não viveu. Muitas delas você não sabe. A maioria eu nunca te contei (e eu possivelmente nunca vou contar). Eu sou um emaranhado de experiências. Eu já chorei noites e noites sem que você tivesse ideia disso e eu nunca pedi ajuda porque não podia. Eu passei pelos meus perrengues, eu me segurei sozinha nos meus sapatos, eu me enfiei debaixo das cobertas e esmaguei os travesseiros contra a cara, pedindo apoio e você não estava lá. Eu cresci assim, eu me criei assim. Eu sou mais minha do que jamais seria sua.

Os meus labirintos são meus. Eu já me perdi em mim. Eu não tenho medo do que eu me tornei. Eu não tenho vergonha disso. O que eu sou é fruto de tudo o que eu vi e tudo o que eu vi é lindo e é meu e você, você não sabe. Você não poderia saber.

Eu não quero ser igual a você. Eu não quero achar o que você acha porque eu não passei pelo que você passou. Eu não quero me sentir encurralada na junção de duas ruas, esmagada contra o muro, pedindo permissão para ser, para sentir, para pensar. Eu não quero censura em cima dos meus desejos, eu não quero que me cerceiem as vontades, que me tracem rotas que eu não quero seguir. Eu sinto muito, meu Deus, que a vida não tenha te dado tudo o que você queria. Só eu sei o quanto me dói quando você me olha com esses olhos pretos de dor e me pede pra ser quem eu não sou pra te agradar, pra realizar os seus desejos nunca realizados. Só eu sei o quanto me dói dizer não e o quanto eu sei que vou continuar dizendo não porque não quero, não posso e não vou me enfiar de novo dentro de mim mesma e vomitar verdades que não são minhas. Eu não quero ser você. E acho que nem você quer – então, meu lindo, me diz: por que é você continua sendo?

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