A quem interessar possa

Mas não esquente você, não, que um dia lhe pago dobrado pela gentileza que você me fez aquele dia. Faz um pouco mais de um ano – parece, meu Deus, que foi ontem -, são uns quatrocentos e poucos dias e eu ainda quero agarrá-lo pelos cabelos e destruir sua cara de anjo nos cacos do espelho. Tanto tempo depois e só hoje eu consegui escrever sobre você. Eu ainda estava com medo, eu ainda estava com vergonha – acho que, lá no fundo, eu me sentia culpada pela forma como saí de lá naquela noite estranha. Acho que eu não queria me lembrar dos pormenores, da forma como eu cobri meu rosto quando voltei para casa e chorei, chorei, chorei encostada no vidro do ônibus. Não era só questão de me sentir usada, não – era algo maior, algo mais perto de rejeição, algo mais perto da percepção de que eu não valia nada. Algo mais perto daquela vontade imensa que eu tive de secar um bar inteiro e me esconder debaixo da cama e eu tive que fingir que não, que estava tudo bem, que era tudo mesmo por minha causa porque fui eu, fui eu, fui eu. Eu e eu e eu gritando na minha cabeça e querendo apagar tanta coisa e fazem quatrocentos e poucos dias que eu ainda lembro de tudo e ainda dói porque hoje eu não penso mais eu, eu, eu, eu penso você, você, você e tudo ainda me dá vontade de esfregar a esponja e o sabão nos braços até sangrar – mas eu quero falar, eu quero escrever, eu quero me esgarçar inteira aqui pra ver se eu consigo superar, se eu consigo deixar passar. Eu quero sentir tanta coisa ainda, mas parece que eu congelei – eu quero sentir tanta coisa, por que é que eu não consigo? Eu acho que você matou alguma coisa muito grande naquele dia, porque eu nunca mais consegui olhar pra mim da mesma forma, porque eu nunca mais consegui olhar pro espelho sem pensar na imagem torta que era você me olhando daquele outro espelho, com aqueles olhos que me diziam que eu estava vendendo a alma, que eu estava lá pra ser um pedaço de qualquer coisa pros seus dentes afiados. Suas palavras também foram afiadas. Não sei quantas noites foram de luz acesa porque eu tinha medo de ficar no escuro e te ouvir falar no meu ouvido. Não sei quantas noites foram de silêncio, desesperada para falar, desesperada para explicar e tão constrangida e tão desajeitada e tão miúda. Eu quebrei naquele dia e você não percebeu porque não te importava. E não importa hoje ainda, mas eu vou falar mesmo assim porque eu não quero achar mais que foi culpa minha, porque eu não quero achar mais que eu mereci, que eu não podia ser nada além daquela sua válvula de escape esdrúxula. Você me quebrou naquele dia e eu acho até que você pode ter notado, às vezes, mas a minha única certeza é que você não se importava. Eu aceitei porque fiquei com medo. Eu tive medo de você. Eu tive medo. Eu não sei quantas tardes foram. Eu não sei como foi que eu segurei tudo pra mim. Mas hoje eu não quero segurar nada pra mim. Tome você todas as minhas palavras, todas as minhas lamúrias (ainda que elas não te digam nada). Tome tudo, atole na garganta e não me apareça mais nem em sonho. Porque fazem quatrocentos e poucos dias que eu tenho medo de dormir porque você pode aparecer por lá.

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