Dos olhos

Sapatos plataforma, moça? Quem é que usa sapatos plataforma às sete horas da manhã de um domingo? Foi a primeira coisa que pensei quando olhei para ela, silenciosa na estação do metrô. Ela parecia impaciente; mexia-se de um lado para o outro, tocava no cabelo, enfiava as mãos nos bolsos da calça batida.

Ela tinha os olhos mais tristes que eu vi em muito tempo – e olhar para ela, totalmente sozinha, com a cara vermelha de quem queria chorar e não se daria ao luxo de fazê-lo ali, foi um golpe inesperado. Observei-a em silêncio, vendo-a morder o lábio inferior, mirando o chão sujo debaixo dos seus saltos. Quis me aproximar. Ensaiei uma desculpa ou outra; talvez ela me deixasse chegar perto e perguntar e entender. Eu queria, Deus, saber o que é que havia acontecido com ela.

Eu a olhei pelo espelho, então, ainda incerta. Ela levantou a cabeça e, na fração de segundo em que nos observamos, ela me feriu. Ela me feriu forte, fundo, como quem atola uma faca na barriga de alguém. Ela me olhou com uma expressão que era pura derrota, puro medo, pura vergonha de ser. E não chorou. Não chorou ou porque era forte demais para chorar ou porque tinha receio de não conseguir parar, se começasse. E se foi quietinha, desconfortável, como quem se sente claustrofóbica em si mesma.

Horas depois, parece  que eu ainda estou sangrando pela brutalidade dela. E termino me perguntando porque é que eu não consegui dizer nada. Como foi que ela saiu estalando os saltos ruidosos, carregando o mundo nos ombros e nos olhos e eu deixei? 

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