Aos amores (que tive)

Parece estranho que isso tudo saia de mim numa quarta-feira de madrugada que já se promete arrastada, mas eu não vou proibir os meus dedos de traduzirem tudo o que a minha cabeça me grita. Não vou ter medo da exposição do meu pior, porque eu preciso aprender a lidar com ele (e eu vou). O que eu quero dizer é: foi bom enquanto durou. É assim que eu quero começar. Tendo durado um dia, um ano, dois anos, cinco anos; foi bom. Pode ter sido uma merda, mas algo de bom teve. Aprendi a ser mais leve. Aprendi a ser mais serena. Revi meus conceitos de amor, de posse e compreendi que amarrar alguém a você termina por afastá-lo definitivamente dos seus braços. Quanto mais nos distanciamos, mais desejamos estar próximos. Estar apaixonada tem menos a ver com precisar de alguém e mais a ver com querer compartilhar – mais a ver com querer ver livre, ver bem, ver vivo, entende? Laços aparentemente frouxos se estenderam por muito tempo (e, em segredo, vou confessar que talvez ainda se façam presentes) e laços que se vendiam tão fortes esfarelaram com o primeiro ventinho. Não faz mal. Acontece. Doeu um bocado, ainda dói de levinho, mas acontece. Nunca esperei grandes epifanias da maioria de vocês e não me levem a mal. Eu sei que a maioria de vocês também não esperava muita coisa de mim e hoje isso não machuca. Eu entendo. Eu aceito. Espero ter sido um laboratório interessante e juro por deus que não estou ironizando. Espero que volta e meia vocês ouçam um cd específico e sorriam de canto pensando naquela menina baixinha e hiperativa que passou há uns dias ou anos e deve estar em algum lugar do mundo sendo baixinha e hiperativa e cantando Sing me to sleep sing me to sleep como se tivesse catorze anos. Digo que espero isso porque volta e meia repasso certas situações e sorrio de canto pensando naqueles discos, naquelas músicas, naquelas horas de conversas perdidas (ou não-tão perdidas assim), naquelas discussões poéticas sobre artistas do sul dos Estados Unidos e sobre as bandas dos confins da Inglaterra que poderíamos ter visto ao vivo, mas não vimos. Ter perdido algumas pessoas me fez ver que o importante é sonhar por si. Manter-se em pé com as próprias pernas. Permitir-se uns caprichos, mas manter a solidez travada nos próprios joelhos. E isso não é egoísmo, é precaução. Isso não é egoísmo, é saber que a vida muda e que alguns planos talvez não devessem mesmo ter se concretizado (e talvez não devessem mesmo ter sido feitos comigo). Não faz mal. Eu juro que não me ofendo. Acho que já passei da fase de achar que tudo o que é prometido pode ser cumprido. Acho que já entendi que coisas ditas no calor do momento, no ápice das utopias amorosas, nem sempre são passíveis de serem concretizadas. Eu juro, aliás, que não queria ter feito algumas promessas vazias. Eu queria ter honrado a minha palavra, mas não deu. Não deu. E eu não vou dizer nada além disso: não deu. Os motivos, se vocês não sabem, permanecerão escondidos em mim. Se vocês sabem, sabem bem: não deu. E por respeito, não repito. Não é que tenhamos sido más pessoas. Não é que sejamos errados ou infiéis ou incapazes. Éramos as pessoas que podíamos ser, no momento em que nos era permitido ser o que fosse. E está tudo bem. Eu não estou sofrendo e, espero eu, nem vocês. Acho que respiramos outro ar quando seguimos caminhos opostos. Acho que entendemos a verdade do fim e, de certa forma, compreendemos a beleza agridoce dele. Como eu disse: foi bom enquanto durou. Já não me importam as lágrimas derramadas e a raiva incontida e as cartas nas quais eu botei fogo. Não me preocupo com as vezes imaginárias em que quebraram o meu pescoço e me deixaram para morrer na estrada. Vivi. Viveram. Vivemos. E está tudo bem. Acho mesmo que não foi falta de amor, na maioria das vezes: foi mais… falta de coragem. Eu acho que devo algumas desculpas. Eu acho que mereço algumas, também. Mas o silêncio, nessas horas, talvez seja a solução mais sensata. Vivi. Vivemos. E continuamos.

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