Litanias de Satã

Falta pouco – tão pouco que as contas já começam a me animar de leve. É um engano que eu gosto de alimentar. Todo ano, nessas últimas semanas, eu me digo que tudo vai mudar. Eu me convenço, quietinha, calculando dias nas pontas dos dedos, que logo, meu Deus, logo vai ser doce e diferente e eu vou querer chafurdar na minha alegria. É uma espécie de fraqueza minha, sabe? A minha inclinação a alimentar a minha própria idiotice. Sou tão auto-suficiente que dispenso os estímulos externos, esses bem mentirosos que só servem pra tentar tirar da cova, e me forço a engolir coisas que, no fundo, bem no fundo, nunca me convenceram nem por um segundo. Eu conto e rio e faço piada e faço troça de mim porque esse é o meu habitus. O ano vai me deixar como o ano passado me deixou. Como tantos mais me deixaram. Tantos anos e tantas pessoas. Eu já misturo as datas. Talvez tenha sido em 2010.  Quem eu era, naquela época? Era tão distinta e, ainda assim, era tão eu. Sozinha. Vê. Essas coisas não mudam, dindi, não mudam. Sozinha lá, sozinha aqui, sozinha pelos cantos. Ano após ano. Estourando o champanhe e mirando a lâmpada com a rolha pra ver se me ponho no escuro e não perturbo ninguém. Estourando o champanhe e mentindo que amanhã, amanhã, amanhã – sempre depois. Meu pé no futuro não me deixa viver o presente. Meu outro pé, esse no passado, atrapalha qualquer chance de eu ter um futuro. Acho que foi em 2009. Um ano desses perdidos. Um desses.

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4 thoughts on “Litanias de Satã”

  1. Talvez eu goste tanto disso porque seja tão parecido com você. Ou talvez a melancolia dessa geração seja apenas resultado de nunca efetivamente termos passado por uma grande crise, uma grande guerra, uma grande dor coletiva que nos fizesse olhar pro outro em vez de nós mesmos.

    A melancolia é um sintoma da nossa bênção. Ou não

    1. Muito possível. Clube da Luta tem uma passagem assim, não? Filhos do meio da história, sem grande depressão, sem grandes revoluções. Acho que a gente olha tanto pra dentro que não consegue olhar pra fora.

      1. Clube da luta! Sim, é isso mesmo. Evitamos o conflito a qualquer custo. Queremos o sangue, mas obtemos apenas e tão somente a fábula de ter. De certo modo o problema dos nossos tempos é que parecer ficou mais importante que ser. Ser é quase um acinte, deveriam queimar pessoas por serem no nossos tempos…

        Mas isso seria conflito…

        Mais fácil ignorar ou, o cúmulo do nosso tempo: bloquear do facebook quem não se encaixa na nossa vã filosofia

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