Sovereign Light Café

Escrito ao som de:

De maçãs do rosto rosadas e bem pronunciadas e olhos profundos de paixão e fundos de noites mal dormidas, ela chamava certa atenção. Assustava um pouco os passantes desavisados quando gritava e saía correndo ou dançando pela rua, segurando as mãos dele, obrigando-o a rodopiar com ela.

A cabeça dela era um ninho de ideias desencontradas, um emaranhado de vontades torpes e desejos demasiadamente humanos – e ele, vendo um mar de emoções no rosto dela, embasbacado pela facilidade dela de rir de tudo e de chorar copiosamente logo depois, tinha nela uma espécie de porto seguro. Nada que fosse tão cru e real poderia machucá-lo além do necessário. Então ele aceitava e gargalhava com ela, dedos entrelaçados, consciente do mundo que eles dividiam e alheio ao mundo para além dos dois.

Das memórias daqueles dias, algumas imagens eram extremamente nítidas: os dois com as bicicletas roubadas do vizinho, correndo em alta velocidade por um dos parques, cantando juntos. Ela abrindo os braços enquanto pedalava, deixando-se levar de olhos quase cerrados e ele com um medo desgraçado de vê-la capotando e se ralando inteira. Ela debochando dele e gritando até esvaziar os pulmões, espalhando-se inteira pelo ar. Ele respirando com força, esperando que o gesto a puxasse para dentro dele e a abrigasse no peito quente do amigo. Ela era uma criatura livre e ele também queria ser. Um momento de desfoque e a cena se transforma numa tempestade gelada e quem saltita na chuva novamente é ela, girando com um vestido de passarinhos ensopado, os cabelos descoloridos emoldurando o rosto quadrado. De pés descalços, ela pedia: promete que esse momento vai durar para sempre. Promete que vamos ser nós dois mesmo quando você for procurar a vida lá fora e eu ficar por aqui ou quando eu entrar naquele trem para lugar nenhum. Promete que você vai me entender se eu sumir um dia desses e que vai me amar mesmo sem saber onde eu estou. E ele se viu, tão molhado quanto ela, prometendo aos gritos que seria o melhor amigo que ela teria na vida. Para sempre.

Ela não conseguiu chegar a tempo quando ele pegou o ônibus para o aeroporto – aquele aeroporto que ficava tão longe daquele lugar provinciano onde cresceram juntos. Ela nunca chegava cedo em nada, mas ele nunca realmente a perdoou por ter se atrasado no dia em que ele iria embora. E estava chovendo também quando o motorista arrancou e ele a viu de novo com o vestido de passarinhos e não soube se a maquiagem dela havia escorrido por causa da chuva ou por causa das lágrimas. Ele colou a mão no vidro de trás, o olhar comprido para cima dela, e acenou um adeus. Ela gritou algo que ele não ouviu (mas quis acreditar que foi algo como eu te amo ou para sempre ou seu cretino ou te odeio) e ele respondeu tão baixo que nem conseguiu se ouvir. Mais borrões e os olhos dela como faróis no escuro pelos anos que se seguiram. Anos sem resposta.

(Soube que ela se trancou no quarto por uma semana e que não era mais ela mesma quando saiu de lá. Soube também que ela doou o vestido favorito, enfiou umas tralhas numa maleta e disse para a mãe que ia visitar a tia).

A tia nunca recebeu a visita e a mãe dela chora até hoje.

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