Verdades.

Eu nunca vi Casablanca. Eu nunca li Dostoiévski. Eu tenho vinte e dois anos, mas gosto de dizer que tenho vinte. Eu tenho medo de morrer. Eu tenho medo de ficar velha. Eu sou aquariana. Eu já fui ateísta, agnóstica e já estive em vias de me tornar uma fundamentalista chata – e hoje, porque a vida roda, eu bato tambor. Eu nunca aceitei bem o fato de ser gorda e baixinha. Eu faço piada do meu corpo pra não fazerem piada de mim primeiro. Eu sou filha de Ogum e Iemanjá. Eu tenho estrias. Eu tenho celulite. Eu odeio acordar cedo. Meu corpo é tudo o que eu não queria que ele fosse. Falo contra padrões de beleza, mas sempre quis ter o corpo da Gisele. Ainda acho que seria mais fácil se eu o tivesse. Eu nunca vou ter o corpo da Gisele. Eu tenho medo de amar. Eu gosto tanto de bicho que acho que não sei mais lidar com as pessoas. Eu faço graça pra disfarçar minha falta de jeito. Eu sou muito, mas muito tímida debaixo do meu sorriso arreganhado e dos meus olhões curiosos. Eu não gosto muito de Beatles (fora Blackbird; Blackbird é sensacional). Eu tenho manias feias. Eu não acordo bonita. Eu sou muito crítica. Eu não gosto de comida saudável. Eu não gosto de vida saudável. Eu gosto de vício. Eu gosto de homoerótica. Eu sempre gostei dos subversivos. Eu tenho quarenta anos desde que eu tinha doze. Eu gosto de filmes de terror e finjo que não tenho medo. Às vezes tenho pavor de escuro e não consigo dormir se não escancarar a janela ou me transformar num casulo de cobertores. Eu tenho medo de palhaço. Eu tenho medo de aranha. Minha tripofobia é tão grande que eu sou capaz de chorar se vir uma minhoca ou algo similar. Eu imito meus atores favoritos na frente do espelho. Eu invento diálogos e reproduzo-os na frente do espelho. Eu não sei superar perdas. Eu gosto de filmes de ação. Eu não gosto de Truffaut. Adoro filmes de super-heróis. Sempre que penso no futuro, a minha primeira imagem de mim é a de uma mulher magra (e eu não gosto disso e me censuro quando isso me vêm à cabeça, mas taí: continuo pensando). Minha saúde é ruim e boa parte disso é culpa minha. Eu sou um pouco hipocondríaca. Eu tenho sonhos e pretensões muito bem definidos e não lido bem com frustrações. Eu sou capaz de surtar e me trancar em casa quando me decepciono comigo. Eu sou capaz de fugir do mundo por dias se acho que estou aquém do que eu gostaria de estar. Meus hormônios são problemáticos. Sinto que vou morrer cedo. Não gosto de falar da morte. Não lido bem com quem morreu. Já vi gente morrendo. Já presenciei assassinato. Nada disso me saiu da cabeça. Não sei lidar com o que acaba, mas adoro mudanças. Eu sou tão fissurada na minha liberdade que posso me tornar fria, distante e superficial. Eu não me orgulho de nada disso.

 

Hoje é primeiro de abril e eu não quero mentir sobre porra nenhuma.

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