Chafurdando em mim

Nessas madrugadas insones, eu penso que vou parar. Vou parar com todos os meus vícios e tentar me estabilizar só com o poder da minha mente, esse aparelho fantástico que, desregulado, tem me feito trocar o dia pela noite há anos (mesmo quando eu estou cansada o suficiente pra sentir meus ossos rangendo – como agora). Acredito que os meus hábitos estão piorando o que já é bastante… ineficiente. Estou escrevendo porque já não sei mais o que fazer. Minha válvula de escape preferida continua sendo essa. Foi assim: rodei na cama, troquei os meus travesseiros de lugar, joguei edredons no chão do quarto. Levantei depois de duas horas e meia. Revi trechos de um filme gay. Chorei porque meus hormônios andam assim. Li um pouco. Pratiquei posições de yoga na cama, na esperança de que isso me deixasse ainda mais desgastada e eu acabasse dormindo em algum momento entre a posição do gafanhoto e a posição do arco. Pensei em acender um incenso, mas não sei onde enfiei a base do meu incensário. Repassei mantras budistas na minha cabeça para ocupá-la com outras coisas além dos meus pensamentos acerca de grandes vazios existenciais (e fúteis, também). Penso agora que tenho que voltar a correr. Tomara que amanhã não chova. Preciso lavar roupa e, sem sol, é mais difícil que elas sequem sem cheiro de cachorro molhado. Nada contra cachorros molhados (pelo contrário, gosto muito), mas preferia que minhas roupas cheirassem à amaciante mesmo. Preciso encerar o chão de novo. Sabe quantas calorias você perde limpando a casa? Uma hora de labuta deve matar umas duzentas calorias, talvez? Isso dá uns quarenta minutos de esteira num ritmo aceitável. Eu gosto de correr. É o único exercício físico que não me parece absurdamente excruciante e não exige muito do meu péssimo condicionamento. Estou tentando mudar. Estou largando o que me faz mal, mesmo aquilo que me dá um certo suporte emocional. Sabe quando você está muito nervoso e precisa mastigar alguma coisa e, quando vê, já terminou meia barra de chocolate e está cogitando guardar uma para aquela desgraça daquela madrugada que não passa? Queria chocolate, mas não tem. Eu não comprei. Exatamente porque estou tentando mudar. E eu estou com um pouco de raiva de mim por isso, para falar a verdade, porque o chocolate me daria uma dose gratuitamente deliciosa de endorfina e eu, com minhas oitocentas calorias a mais, pensaria que, putz, vou ter que dar um jeito de correr duas horas num ritmo frenético pra conseguir queimar isso tudo, mas dane-se. Sei lá. Eu gosto de prazeres culposos, mas conheci um cara (esse cara que, nossa) que disse uma vez que não é preciso sentir culpa por prazer nenhum. Admito que me percorreu um frio na espinha quando ouvi essa frase. Não sei se era porque ele era muito bonito e eu acabei transfigurando uma frase inocente em algo pecaminoso (mea culpa) ou se porque eu também curto um hedonismo. Posso usar essa palavra? Acho que posso. Queria tomar um copo de vinho. Me ajuda a dormir. Mas acho que isso é uma válvula também. Eu fico um pouco irritada com a minha necessidade de pequenos escapes. Eu fico um pouco irritada, especialmente, porque acho essa fuga muito atraente (nos outros, inclusive). Acho que essa é a minha parte mais narcisista. Eu gosto de tudo o que não presta em mim e gosto mais ainda quando eu vejo meus reflexos borrados nas outras pessoas. Cansei de gostar de gente que não machuca. Eu gosto dos terremotos. Eu gosto dos desajustados, dos que tem Asperger, dos que não sabem flertar, dos que trocam letras e sílabas quando estão interessados, dos que falam coisas desagradáveis e se retratam de maneira porca. Eu gosto de quem me rasga o peito na navalhada, com o perdão da indelicadeza. Tenho pensado nessas gentes dúbias há dias. Tenho desejado todas elas. Não consigo dormir porque me sinto sozinha. É o tal do vazio que eu falei em alguma parte aqui de cima. Li um quadrinho que dizia que todo mundo tem um vazio e que tenta preenchê-lo com gente, com religião, com comida, com areia. O personagem da tirinha dizia que aprendeu a conviver com o seu vazio e até gosta do barulho que o buraco que tem no peito faz quando ele corre e coloca o corpo no ângulo certo. Eu criei esse som na minha cabeça, parece alguma coisa assim: voosh. Desse jeito. Voosh. É o som que o meu próprio vazio deve fazer quando eu corro de braços abertos e me atiro em alguma imbecilidade nova. Eu sou cheia das imbecilidades. Voosh! E mudo de posição pra posição do arco, pra posição do gafanhoto, e o som continua sendo esse: voosh. O som dos que não dormem, dos que chafurdam na dor irresistível, dos que não sabem calar o peito… quanto mais o cérebro. Acho que a base do meu incensário ficou na estante da sala. Acho que não vou acender um incenso; o cheiro me incomoda para dormir. Podia estar chovendo ainda. Dormir com chuva é um prazer e tanto. Dormir, por si só, já me satisfaria. Um prazer culposo também, eu acho. Quando eu durmo, eu não penso. Eu devia achar ruim não pensar. Mas veja só quanta coisa me pulou da cabeça pros dedos em quinze minutos.

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4 thoughts on “Chafurdando em mim”

  1. Maravilhosa composição. *_*
    Diga para o eu lírico que a liberdade deve estar em algum segundo desses 15 minutos, talvez nos escapes mesmo.
    Porque a gente não dorme, escreve, pinta, encena, trabalha, muda de vagão, enlouquece, muda de cidade, (…), o diabo à quatro. E no asfalto ou maré baixa, o “voosh” continua bocejando…

    1. Maravilhoso é ver o seu rosto, mesmo que por fotografia.
      Eu imagino que devo ter enfiado a liberdade em alguma entrelinha, mas não consigo encontrá-la agora. Tem sido um pouco difícil, mas pra quem não é, certo? Seu vazio tem cantado ainda? Talvez tenha chegado a hora de pegarmos umas mochilas e fugirmos pra Paris.

  2. Eternamente in love em Paris contigo. Residência artística mesmo sem holofotes. Em Paris, por quê? Pode ser em qualquer lugar, meu amor. ❤

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