Lúcia

Ela viu nele uma espécie de porto seguro. Eu, se você quer mesmo saber a verdade, nunca entendi bem como isso aconteceu. Ela era uma dessas meninas que enchem os olhos, sabe? Alta, de curvas generosas, sobrancelhas arqueadas e clavículas que poderiam matar um passante desavisado. E como era inteligente. E como brilhava, a danada.

Ele era um cara mediano. Nem bonito nem feio. Tinha uns olhões azuis, mas isso era tudo. Era um desses que sabe o discurso de “Rocky, o lutador” de cor e esconde pornôs numa pasta com senha (dentro de outras mil pastas com senha).

O destino gosta de fazer troça de vez em quando. E nos vaivéns dos dias, o bailado dos pés dela trombou na grossura dos pés dele. E ela se deixou levar quando ele enroscou seus dedos juntos e sorriu um sorriso enviesado. Por algum motivo (e isso não deve fazer sentido nem para ele, quanto menos para mim), ela sorriu de volta. E se aproximou e cerrou as pálpebras e roçou o rosto no dele como quem achou abrigo. E ele, vaidoso da moça que tinha nos braços, enlaçou-a tão firme que ela quase sufocou. Ainda me pergunto se, secretamente, não era essa a intenção dele.

Aos poucos, ela deixou de ser ela. Amarrou os cabelos. Deixou os vestidos e as coxas meio desnudas nos fundos do armário. Abandonou os programas de sábado à noite (trocou-os por umas sessões de filmes que ela nunca nunca pôde escolher). Parou de escrever. Parou de brigar. Cedeu a língua para as palavras dele. Murchou pelos cantos. Andava pela rua com as clavículas sob casacos de lã. Invisibilizou-se por ele – que crescia pomposo, sentado sobre as fraquezas dela. No breu daqueles olhos, outrora tão meigos, ele se transfigurava num deus.

Então houve a quebra.

Eu não sei bem como foi isso, mas um dia ela ergueu a cabeça e se estranhou inteira. Olhou para as próprias mãos e viu dedos encolhidos, viu unhas encravadas na carne. Sentiu-se saudosa das unhas curtas, mas sempre coloridas. Puxou as mangas da camisa. Arrancou-a, logo depois. Admirou seu tórax, sentindo-o magro e lento, e pensou que houve um tempo, céus, houve um tempo em que ela sentia tanto tesão pela vida que aquele peito subia e descia numa velocidade obscena. Apalpou a garganta. Desatou um nó firme. Reencantou-se por si. Viu-se linda – quebrada, mas linda.

E toda dela.

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2 thoughts on “Lúcia”

  1. Eu já devo ter te dito que adoro esses retratos que você pinta de dias comuns. Eles são fodásticos, vc sabe disso. Mas, assim, talvez o que me encante mais seja essa sua tendência obscena à pós-modernidade. É bem isso mesmo, uma certa surpresa ali perdida no meio dos parágrafos. Isso é realmente um talento fabuloso. Parabéns pelo excelente texto.

    1. Muito obrigada, meu bem. Eu sou apaixonada pelas coisas do dia. Agradeço muito que você me acompanhe depois de todo esse tempo – e agradeço mais ainda pelos comentários, gentilezas e observações.
      A pós-modernidade vai me matar um dia. Mas por algum motivo, eu gosto dela. Muito mesmo.

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