Coucher

Mas sabe, dentre todas as coisas que eu queria te dizer, acho que a principal delas é que eu nunca mais consegui comer doce sem me lembrar de você tentando desesperadamente pegar os resquícios de creme de avelã de dentro do pote, na minha cozinha, numa dessas madrugadas famintas. Essa memória eu tenho inteirinha na minha cabeça: seus olhos procurando os talheres, sua mão capturando uma colherzinha e você com uma concentração de fazer Buda corar. Eu lembro de mim rindo, encostada no batente da porta em nada além daquele meu pijama horroroso (o porquê de você nunca ter me dito isso ainda é um mistério), aguardando o desfecho daquela cena boba. Além disso, sabe, eu tenho algumas outras lembranças bastante curiosas e todas elas são de coisas assim: você cantarolando aquela música daquela banda que você finge que não gosta (até hoje, aposto) enquanto lavava a louça que você sempre deixava acumular. Você cortando seu cabelo na frente do espelho do banheiro com uma tesoura cega. Você entrando em pânico com o resultado da dita tesoura cega e eu tentando não rir enquanto corria para o seu quarto e fingia procurar outra tesoura nas gavetas. Você brigando comigo pela minha mania desagradável de cheirar seu ombro, seu pescoço, seu cabelo, sua blusa. Você brigando comigo pelo prazer de brigar (essas são muitas memórias, na verdade). Você empesteando a casa de incensos. Você e as suas teorias conspiratórias envolvendo seitas e planos maquiavélicos de dominação global. Você me colocando para dormir depois de tantos filmes num dia longo e absolutamente frio e absolutamente irresponsável e absolutamente necessário. Eu deitando nas suas clavículas proeminentes e roçando meu rosto contra elas e sentindo, dessa vez sem censura, o perfume que não era perfume de marca, não era creme nem desodorante, mas aquele seu cheiro que era um misto de calmaria e avalanche. Você me fazendo carinho no cabelo e me ninando com a voz rouca. Eu sinto falta, sabia? Sinto mesmo. Sinto falta de tudo isso. Não porque tudo foi bonito (até porque muita coisa não foi – mas muita coisa foi), mas porque hoje, sozinha debaixo do meu cobertor felpudo, eu senti falta de qualquer cheiro conhecido que me fizesse dormir bem. Não porque eu te amo ainda ou porque eu venho te amando desesperadamente há uns dois anos, não, mas porque me senti estranhamente vazia hoje e não tive um abraço sequer para me fazer sentir mais, não sei, menos…? Menos assim. Menos desse jeito que eu não sei explicar direito, sabe? Claro que sabe. Você sempre sabe. O que importa é: queria seu cheiro por perto só para eu me sentir perto de alguma coisa que não um travesseiro com cheiro de travesseiro. Sinto falta de qualquer familiaridade. Sinto falta. Aparece aí um dia desses, se isso ainda te fizer a cabeça. Me conta dos seus planos nessa nova empreitada, me deita no seu ombro e me canta aquela do Frank Sinatra que você achava tão bonita até eu fechar os olhos e ressonar. Me canta qualquer coisa pra eu fingir que nada mudou aqui dentro e que dormir não é reviver mil coisas que não vão acontecer mais. Canta baixinho até sua voz virar sonho e me deixa por lá. Se não for pedir muito, talvez.

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8 thoughts on “Coucher”

  1. Hoje mesmo me comentaram de ti e dos teus textos e em como sempre rola uma identificação absurda ao lê-los. E eu, ao reler alguns deles, apenas continuo meio que fascinada com o jeito que você faz a dor ficar bonita. Se cuida, maravilhosa.

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