Dindi

Mas quanta coisa errada no mundo, ah, dindi, como faço? Então sentamos no sofá da sala e eu, munida da minha caneca cheia de chá e com olheiras que são visíveis da Lua, não paro de falar por um instante sequer. Você sabe, ontem eu vi um homem que me doeu inteira por dentro. Ele não tinha a perna esquerda e se movia devagarzinho, silencioso e pensativo, fazendo andar a cadeira de rodas carcomida com as mãos que eram de calos e feridas. Ele olhava para as pessoas com cara de quem não sabia se queria ajuda ou se queria que todos explodissem. E na fração de segundos em que ele olhou para mim, eu juro que eu vi um sorriso. Não sei se foi mesmo, mas pareceu. E eu não sei se ele me viu olhando e pensou que eu tinha pena e me sorriu para fazer com que eu notasse que não deveria me sentir assim ou se gostou do meu cabelo colorido ou se, não sei, sorriu instintivamente – só por sorrir, sabe? Eu sei que havia algo na solidão daquele homem machucado que me parecia tanto uma surra quanto um afago e eu me vejo sentada aqui, com um corpo roliço e perfeito, desprezando tudo o que não me parece bonito. Você entende, dindi? Não é um papo para vender livro de auto-ajuda, mas é um questionamento meu, sobre mim, depois de ver o outro. E eu bebo mais chá e você me pergunta se eu quero mais e eu aceito e pego a sua caneca e bebo e você me sorri um sorriso que não tem nada de bruto (é só carícia no meu coração ferido). Sabe do que mais? Eu vi um casal de moças voltando para casa, eu acho, ontem à noite. E as duas tímidas no metrô se olhavam cúmplices e trocavam segredos baixinho. Tinham as mãos entrelaçadas de maneira bem discreta e não se tocavam além do que a moral permite mas, ainda assim, uma senhora de sobrancelhas grossas e olhos fuzilantes não desviava a vista dos dedos unidos. Comentou qualquer grosseria quando elas desceram na Consolação. Queria eu consolar esse coração tão cheio de desprezo, tão incapaz de qualquer coisa pura. Eu senti amor quando eu olhei para as duas. Eu só vi amor. Eu não entendo gente que não é feita de amor – gente assim igual a você, dindi, que me faz carinho no cabelo e me puxa para o peito enquanto eu balbucio que não quero mais, que não aceito a vida nessa cidade (da qual eu, contraditoriamente, gosto tanto) sem cor, que não consigo pensar que parei de comer carne para salvar a vida dos animais e que não consigo, ainda assim, impedir que eles continuem morrendo e sentindo dor. Como eu queria que a vida lá fora, distante dessas quatro paredes amarelas que me abençoam com silêncio e sossego, parecesse com o seu abraço. Me abraça, dindi, pelo tempo que você puder. Como eu queria que o mundo terminasse nas batidas do seu coração.

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