Primeira carta

Dindi, sinto saudades. Não sei escrever cartas como gente normal escreve. Não preciso me identificar, colocar a data lá em cima, inserir dedicatórias, tratá-la como se você não fosse uma parte amada e apartada de mim. Sinto saudades, Dindi, até porque faz tempo que você não me responde. Espero que não esteja com raiva pelas últimas coisas que eu te disse; espero mesmo. Você sabe que eu sou uma pessoa um pouco impulsiva, que eu acabo me atrapalhando e dizendo o que eu não quero bem dizer e é por isso que eu prefiro escrever. Você me perdoa? Sei que seu último número não funciona mais. Tentei ligar para ele algumas vezes nas últimas semanas e nunca tive uma resposta além de que, bem, o número para o qual você ligou não recebe chamadas ou não existe. De qualquer jeito, eu estou escrevendo porque senti falta da sua mão em cima da minha mão e do seu sorriso que sempre foi o bastante. Estou escrevendo porque aconteceram algumas coisas e eu não posso falar com ninguém além de você. Desculpa se te dedico essas linhas em aberto. Foi a minha única maneira de garantir que essa mensagem chegasse. Aqui vamos nós, Dindi: eu fiz de novo. Eu sei que te/me prometi que não o faria, mas a verdade é essa. Eu falhei. Eu menti. Adulterei contra mim. Sabe dele? Ele me corta em duas metades e eu deixo. Ele me trata como aquela criatura desinteressante que só serve pra esquentar a cama nos momentos de tédio absoluto. Uma dessas que vem e vão. Às vezes não tenho certeza se ele sabe o meu nome. Prefiro não perguntar. Deixo que ele me chame de ei, você, moça, menina, garota. Eu permito porque enfiei o meu amor próprio no fundo do armário do seu quarto antigo – sabe o que isso quer dizer? Está lá junto com todas as coisas em que eu não ouso mexer. É tudo seu. Tudo cheira a você. Com um pouco de mofo, é verdade, mas ainda é você. Isso foi engraçado? Eu tentei. Não vou ver o seu rosto, mas aposto que você está sorrindo. Não um sorriso arreganhado porque você nunca dá sorrisos arreganhados, mas um sorriso contido, de canto. Tá doendo ficar desse jeito. Eu preciso do seu carinho no meu cabelo e de você me dizendo que eu mereço mais, que eu sou maior, que eu não deveria sentir tanto medo de me impor, de buscar quem me respeite e queira e ame – mas dindi, só você me ama. Do seu jeito, que não é bem o jeito como eu espero ser amada, mas é a forma mais linda como já me amaram. Me ama pra sempre, dindi, você pode? Me escreva quando puder. Me deixe lembrar de você com as suas próprias palavras. Cansei de inventar diálogos porque não lembro mais do que conversávamos. Me escreve. Te amo.

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