Segunda carta

Primeira carta: https://spleenitique.wordpress.com/2014/06/28/primeira-carta/

Dindi, você ainda não entrou em contato comigo e eu sei que faz pouco tempo e eu não deveria esperar que você me respondesse tão rápido, mas por algum motivo eu tenho certeza, certeza absoluta de que você leu o que eu te escrevi há uns dias. Por conta disso, te escrevo nesse intervalinho mínimo, esperando comover seu coração com um pouco das minhas bobagens. Tomei uma xícara de café preto com bolo agora pouco e isso me lembrou absurdamente de você, que sempre arrastava seus chinelinhos casa adentro, desesperada por um petisquinho vespertino. Essa é uma memória besta e infantil, mas que eu guardo com um carinho absurdo. Seu pedaço está separado dentro da geladeira, caso você queira passar por aqui hoje. Sei que a distância é grande – são umas horas de carro, eu sei -, mas prometo que, se você vier, passo um café na hora e ainda pago metade da sua gasolina. Você pode dormir na minha cama, ela é espaçosa e tem o colchão meio duro, que vai fazer bem para a sua coluna. Como anda a sua coluna, por falar nisso? Lembro que você estava tomando remédios manipulados e que eles estavam fazendo muito bem, mas como faz tempo que não converso sobre nada além de mim… Bem, devo ter esquecido de perguntar isso da última vez em que você ligou e eu só te perturbei com meu, eu, quero, sou, estou, vou, ego, moi. Desculpe. Você poderia ter me dito que estava cansada. Poderia ter me cortado e comentado sobre o último episódio daquele seriado que nós duas adoramos. Poderia ter resmungado, me chamado de pentelha, dito que eu era uma tagarela do inferno, prometido que iria desligar se eu não mudasse o rumo. Eu teria mudado. Acho que teria, pelo menos. É uma droga não ter certeza disso também. Desculpa, Dindi? Pelo tempo que eu passava sentada e olhando para o teto e buscando motivos e razões e tentando me reafirmar para o nada. Isso mudou. Juro que mudou. Eu tenho uma postura que com certeza vai ter dar orgulho. Prometo. Você pode pegar um ônibus na rodoviária hoje, que tal? Não precisa nem pegar o carro emprestado. Eu tenho umas roupas que te servem, um pedaço de bolo gostoso, uns trocados para ajudar a pagar a volta (não que eu queira que você vá embora rápido). Vou te esperar na saída do metrô amanhã de manhã. Pegando o último ônibus, acho que você deve chegar aqui por volta das sete. Saia pela direita, no terminal. Estarei lá. Traga um casaco, que está frio. Levarei um casaco também, por garantia, caso você esqueça o seu em algum lugar. Você era tão esquecida. Tomara que não mais. Te amo mesmo assim. Um beijo, Dindi. Me escreve. 

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