Regurgitando a crise

O que houve com o tempo em que a gente se achava tão grande que as dores do mundo eram inteiras nossas? Hoje a gente se preocupa tanto com o pouco que a gente tem que a vida lá fora e toda a sua desgraça e todo o seu sangue derramado parece mais uma novelinha de fim de tarde do que algo realmente monumental. Eu tenho essa preocupação imensa com as contas que tem que ser pagas, com os cento e poucos reais que me vão embora com o básico do básico do básico e a despensa que fica vazia de um dia para o outro. Eu sinceramente detesto ter que comer todo dia – que merda, com tantos anos e milênios e civilizações e guerras e invenções mirabolantes e impressoras 3D, até hoje ninguém pensou em desenvolver alguma fórmula mágica, alguma pílula especial que nos permitisse comer uma vez por semana e tudo bem? E não só isso. Me chateia ter que levar meu corpo, esse futuro cadáver, para o chuveiro, para a cama, para a pia. Me chateia lavar, passar, cozinhar, cuidar de mim de uma maneira tão rigorosa que eu quase me convenço de que sou preciosa, de que isso tudo é importante. Deslizo meus dedos pelos produtos no supermercado e eu vejo nomes que não faziam muito sentido até eu descobrir que precisava absurdamente de todos eles para viver. Esfoliantes, adstringentes, antitranspirantes, colônias, arnica, sebo de carneiro (Deus queira que esse seja só o nome), antisséptico, Paracetamol, Naridrin, gel lipolítico, hidratante, colágeno. Umas gotinhas de Rivotril na água para tornar os dias menos cinzas. Um ou outro copinho de mel com guaco para a garganta que, né, nunca se sabe, pode ficar ruim da noite para o dia nesse tempo doido da cidade. Me chateia que eu tenha que fazer exames preventivos, que sempre pense que estou com alguma doença que vai me botar morta em dois tempos. Me chateia saber que eu me importo e me esforço para manter uma alimentação saudável e fazer yoga e correr quando tenho tempo e negar doces depois da refeição enquanto finjo não saber não lembrar não perceber que tem veneno em tudo o que eu como, respiro, engulo. Enquanto finjo que os remédios que me botam para dormir não me fazem depender deles eternamente para conseguir cochilar um soninho medíocre depois de um dia medíocre numa rotina medíocre fazendo coisas que gente medíocre se presta a fazer. Meu corpo, esse imenso acúmulo de resíduos da modernidade, ri pra mim quando eu o olho no espelho. E continua rindo mesmo quando eu lhe dou as costas e saio andando – pra outro dia, dia e outro.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s