Canção de mim

Tentei dormir essa noite. Até senti sono nas primeiras horas. Deitei, então. Fechei os olhos. Inspirei. Deixei o ar ir. Inspirei. Expirei. Deixei a alma dar uma volta (permiti: eu gosto quando ela sai para passear), mas a danada não quis ir muito longe hoje. Sentei na cama. De olhos semicerrados, observei o quarto escurecido. Abri a cortina e deixei que uma fagulhinha de luz se precipitasse para dentro do cômodo cheio de mim. Me senti sozinha. As noites às vezes são cheias de silêncio berrado. É um silêncio estranho, entende? Parece que toma forma e abre todas as minhas gavetas, que derruba todas as roupas que eu guardei no armário, que brinca de abaixar e subir os zíperes barulhentos das minhas jaquetas. O incômodo silêncio no cômodo. Ri baixo da frase boba. Com certeza esse período cairia num vestibular. Aliteração, se não me engano, a tal da figura de linguagem. Não sei se essa colocação está certa. Não acho que passaria no vestibular de novo. Nunca aprendi realmente muita coisa… acho que disfarcei bem quando fui testada e dei um pouco de sorte. Às vezes eu tenho muita sorte. Às vezes não tenho. Mas não me sinto tão menos sortuda do que a maior parte das pessoas, não mais. Acho que me falta um pouco de força de vontade. Estou tentando adquiri-la. Tenho reorganizado meus pensamentos, catalogado-os em ordem alfabética, decidido prioridades. Tenho feitos planos só para mim porque agora acredito que sonhar em voz alta dá dor de cabeça além da conta. Não gosto de quartos que são meio iluminados. Ou são escuros ou não são. Abri a janela e fiquei olhando a lua pálida do lado de fora por um tempo longo, esperando que ela me ninasse de alguma forma. Senti saudades de ter colo. Faz falta até pra gente grande. Faz falta até pra menina crescida. Estiquei meus braços, ouvi rangerem meus pedaços. Preciso dar a esse corpo roliço um pouco de movimento. E rápido. Antes que ele decida que não vale a pena lutar por mim. Abaixei a cabeça, estalei o pescoço. Mexi devagar o meu crânio (que me parece pesado de tanto pensamento pela metade). Inspirei. Expirei. Ouvi um barulho vindo da cozinha. Não tenho medo, moro no quinto andar e não tem psicopata que queira escalar tudo isso. Rolei os olhos. Massageei o peito. Deitei de novo. Cerrei as pálpebras. Ouvi meu corpo cantar pra mim. A movimentação das entranhas é algo que não se observa com atenção o bastante. Se parece feio, é porque não percebemos o quão bonito e real é de verdade. Essa música se faz por entre os órgãos de um jeito que ultrapassa meus conhecimentos escassos de fisiologia. Domina minhas veias, entope as artérias. Se espalha num bombear, depressa, inundando vasos, preenchendo lacunas – grandes espaços de vazio -, ocupando, dominando. Soando no cômodo vazio num som que não é fácil de ser reproduzido com letras – que soa até, não sei, como uma onomatopeia de história em quadrinhos. Gosto do meu interior falando comigo de uma maneira tão literal. Quando ele é lúdico demais, não gosto tanto dele. Fechei a cortina.

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